Opinião – O desperdício

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Joaquim ValenteJoaquim Valente

O relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), publicado em Maio pp, revelou que o desperdício alimentar entre a fase da produção e do consumo representa 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a um terço da produção alimentar necessária.

Os desperdícios nos países europeus apelidados de elevado nível e nos EUA dariam para alimentar cerca de 500 milhões de pessoas num mundo onde a fome atinge já 900 milhões de pessoas, e um quarto dos alimentos que actualmente são perdidos ou desperdiçados em todo o mundo seriam suficientes para alimentar as 900 milhões de pessoas que têm fome.

O diretor-geral da FAO, responsável pela implementação do programa “Fome Zero” afirmou que é “perfeitamente possível” acabar com a fome no mundo e a que existe por falta de produção de alimentos não têm razão de existir, porque o que se produz actualmente dá para alimentar todos os cidadãos. O director-geral da FAO demonstrou que é possível erradicar a fome “de uma forma rápida e a um preço mais barato” dando como exemplo o que aconteceu no Brasil nos últimos cinco anos.

Com o esforço conjunto do sector público e privado, assim como das organizações sem fins lucrativos e das redes de fornecimento de alimentos, com o contributo das novas tecnologias e com melhores práticas desde a produção de alimentos até ao consumo é possível reduzir as perdas e os desperdícios de alimentos.

Há disparidades em termos estatísticos quanto à fome nos países ditos de mais rendimentos e os de menos rendimentos mas enquanto nos países mais desenvolvidos os desperdícios de géneros existem no consumo, nos países menos desenvolvidos as perdas verificam-se nas fases iniciais e intermédias da cadeia de abastecimento, relacionadas sobretudo com condições financeiras, de gestão e limitações técnicas de colheita, armazenamento, acondicionamento e sistemas de comercialização.

Nos comportamentos individuais devemos planear as nossas compras verificando as reais necessidades, racionalizando as compras e os consumos e limitando o desperdício de comida, e fazendo uma gestão mais eficiente de todo o tipo de bens. O desemprego e a crise económica têm aumentado e agudizado o problema da fome a nível geral e em particular no nosso país como já não há memória, atingindo os mais vulneráveis da sociedade.

Que fazer perante este cenário tão injusto e inqualificável?

Os nossos compromissos políticos e cívicos devem-nos levar a pugnar, onde quer que nos encontremos por políticas activas centradas no ser humano e promotoras da sua dignificação, numa vontade política tendo como eixos prioritários o desenvolvimento económico e a criação de emprego.

A sociedade civil e a religiosa têm dado exemplos gratificantes de solidariedade, de mobilização, de partilha, de entreajuda familiar, de um modo de vida colaborativo e procurando formas mais significativas de relações a nível económico, social e cultural, que servem de exemplo ao próprio governo.

Esperamos que no Ano Novo que se aproxima os poderes decisórios possuam a lucidez e o humanismo necessários para que vejam claro o que já é tão “transparente”!

Feliz Ano Novo.

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