Opinião – Miguel Torga – Anteu português

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JOSE RIBEIRO FERREIRA DRJosé Ribeiro Ferreira

Em tempos de valorização do transitório e do ser moda de manhã e à tarde viar ´jarreta’, não se dá crédito aos clássicos nem se lhes concede espaço. E como poderia ser de outro modo, se os clássicos são, por natureza do nome e por definição, paradigmas permanentes que nos transmitem valores também perduráveis da humanidade –modelos a estudar nas aulas ou ‘classes’, a serem seguidos e imitados.

Neste contexto, para contrariar a tendência e afirmar princípios, vou iniciar um conjunto de crónicas sobre a presença e vitalidade dos clássicos nos autores portugueses e em Coimbra. E pareceu-me vir a propósito começar por Miguel Torga que, além de escritor português (e dos maiores), é de Coimbra e nele a cultura clássica é seiva que vivifica. Deste modo saúdo a valorização que se deu à Casa Museu Miguel Torga e a publicação de novo desdobrável em que sobressai sentido texto da filha do escritor, Clara Crabbé Rocha. Associo-me também às atividades que aí decorrem na quadra do Natal. E naturalmente louvo a ação do Departamento da Cultura da Autarquia de Coimbra.

Miguel Torga é um dos escritores que mais assídua guarida dá aos autores e elementos greco-romanos. São muitos os exemplos que podem ser apontados. Quem não se impressiona com os seus textos e poemas sobre figuras míticas insubmissas, como Prometeu e Ícaro? Se o poeta até se considerou um ‘Orfeu rebelde’ – título que deu a um dos seus mais significativos livros de poemas, onde deu acolhida a composições como

Torga também se identifica com Ulisses que, símbolo de desejo de saber, de abertura ao mundo e aos valores que a humanidade nos legou, é um dos mitos mais recorrentes e vivos na sua obra. Assim a Odisseia eterniza «a inquietação de Ulisses e toda a nossa universal e mortal inquietação» (Diário VI, 24.7.1951 ); e os Portugueses são «outros Ulisses amarrados aos mastros dos seus navios» (Diário IX, 23.9.1961 ), para como ele escutarem as vozes de sereia que vinham dos mares distantes.

Traduzem todo o valor que atribuía à cultura clássica as palavras do Diário VII, durante uma viagem à Grécia ( 8.9.195

3 ): apelida a Acrópole de Atenas de «Cume do mundo humano, Himalaia do espírito» e escreve qu a entrada nessa espaço «foi um tormento. Era como se de repente, num só dia, numa só hora, num só instante, os olhos, deslumbrados por um novo sol, sentissem que toda a luz recebida em cinquenta anos de vida tinha sido escuridão.»

Apesar do que fica dito e do que muitos pensam, o mito com maior impacto em Torga é o de Anteu que corporiza o seu telurismo ou ligação à terra, bem vincados em muitas das suas páginas. Outro Anteu, o contacto com a Terra mãe recuperava-lhe as forças: «De todos os mitos de que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem esquecer, evidentemente, de reduzir o tamanho do gigante à escala humana, e o corpo divino da Terra olímpica ao chão natural de Trás- os-Montes» (Diário XI, 20.9.1968 ); e “Os mitos são verdades eternas. Quando aqui chego [a S. Martinho da Anta] é sempre um Anteu combalido que me sinto, a tocar a terra alentadora e a recuperar as forças” (Diário XV, 11.9. 1989 ).

Embora omita muitos e relevantes mitos e figuras, o que fica dito mostra que a presença dos elementos greco-romanos não são meras ocorrências ornamentais na obra de Torga, mas vivas plantas que se alimentam do húmus dos aluviões do rio da cultura e nos obrigam a constantes sondagens ao disco duro da sua memória onde o baú do tempo se armazena.

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