Opinião – Insensibilidades científicas

Posted by

Aires-Diniz

Aires Antunes Diniz

Muitos de nós pensamos que as universidades estão cheias de pessoas que têm a ciência e consciência suficiente, que permite o pleno desenvolvimento dos processos científicos. Nada mais errado pois muitos doutores não têm vontade de desenvolver a ciência possível exigindo e dando aos seus colegas as condições para que o consigam fazer.

Acontece até que demonstram uma insensibilidade estranha, obstaculizando o trabalho de todos, a ainda mais o dos mais empenhados e capazes. Aconteceu na Academia Politécnica do Porto durante o Século XIX, onde um diretor (João Baptista Ribeiro) favoreceu o caseiro, que usava os terrenos do Jardim Botânico em prejuízo do trabalho científico do lente de Botânica.

De facto, Américo Pires Lima conta que José António de Aguiar “muitas vezes acompanhou o lente proprietário (Barão de Castelo de Paiva) ao campo, com os seus discípulos. Organizou um herbário e arranjou, à sua custa, um pequeno Jardim Botânico. Fez o elogio fúnebre deste professor, o lente da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Albano de Morais e Almeida (Na. Da Acad. Pol. 1884-1885 ). Através do estilo extremamente empolado e gongórico daquele elogio, transparecem os factos, que demonstram a grande perda, que representa para a Academia Politécnica a morte prematura daquele professor.”

E as mortes são sempre prematuras, sempre e quando são de gente de amou a vida, e a tentou usar para dulcificar a vida dos muitos que penam neste vale de lágrimas. São ainda mais prematuras por serem vidas marcadas e prejudicadas pela traição conspirativa dos que caprichosamente vivem para prejudicar os que produzem conhecimento e ciência. Sinto-as como algo que não permite que os que sofreram perseguições e impedimentos tenham a justa recompensa dos seus trabalhos e canseiras.

Sinto por isso como patranha sem sentido a que nos tenta convencer de que não há conspirações. Dizem-no como se todo o mal fosse o resultado de erros e caprichos momentâneos, e não fosse possível pensar o mal como algo pensado e projetado como estratégia de quem não quer que o mundo avance e seja melhor.

Contudo, quando alguém faz a história de como as instituições humanas, científicas ou não, se desenvolveram, logo descobrimos quem as fez avançar ou quem as prejudicou por capricho ou por ter uma conceção perversa do que devia ser o seu papel, dando conteúdo trágico e doloroso ao oportunismo que prejudica os que amam o saber. E isso faz toda a diferença num inquérito, que queiramos fazer, sobre a origem da Riqueza das Nações pois aí a Ciência e a Técnica faz toda a diferença para melhor.

 

1 Américo Pires de Lima – A Botânica na Academia Politécnica do Porto, Primeiro Centenário da Academia Politécnica e da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, Porto, 1937, p. 32.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.