Opinião – Iluminações e pobreza

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Mário Nunes

Nesta altura, o país, sobretudo nas cidades, enche-se de luz. A iluminação invade as artérias e anuncia a vinda do Natal. A esperança parece acompanhar este turbilhão de claridade temporária. Com este sinal natalício sonha-se que tudo corre bem neste cantinho da Europa. Mas … perguntamos: haverá crise ou abundância? Ao lermos e ouvirmos as notícias sobre os milhões de euros que vão ser gastos em iluminações de Natal, ficamos deveras perplexos se será verdade o que reina neste Portugal endividado, em que a pobreza e a miséria chegaram a mais de dois milhões e quinhentas mil pessoas e a classe média caminha para esse estado. Diariamente, anunciam-se cortes em tudo, aumentam-se taxas e impostos, pede-se aos portugueses para poupar (como e o quê?), impõem-se sacrifícios de toda a ordem, afirmando alguns políticos serem intoleráveis, deixa-se passar fome a dez mil crianças, entram nas escolas mais de treze mil alunos sem pequeno-almoço, vivem sem a mínima condição milhares de cidadãos! Como se compreende os gastos supérfluos e faustosos das iluminações nesta quadra natalícia? Prevalece, infelizmente, neste país em ruína e na mente de alguns bem instalados na vida, o conceito da riqueza, ou seja, querem equipararem-nos aos países ricos e mostrarem que somos também grandes, apesar da miséria ser pujante realidade. Triste prosápia.

Ricos e políticos com vencimentos e mordomias escandalosas não atentam nos milhares de portugueses a viver em barracas; nas centenas a fazer da rua a sua casa; nos contentores de lixo a alimentar estômagos vazios; em idosos a morrer por falta de dinheiro para adquirir medicamentos; famílias a entregar a casa porque não podem pagar ao banco; famílias, sem qualquer relacionamento anterior a coabitar com outras para pagamento da renda do apartamento; roubos a aumentar por imperativo de necessidades básicas; milhares de pessoas a recorrer a instituições de assistência social; pais a sustentar filhos com filhos. Enfim, um rosário de afrontas ao homem que deviam empalidecer a consciência desses senhores, mas o slogan é:”aguentam, aguentam, aguentam mais”.

Nesta época em que se lançam campanhas de angariação de alimentos pelo Banco Alimentar, surgem iluminações dispendiosas como marca de orgulho e sobranceria. Para que servem, se à noite as ruas estão desertas devido à insegurança reinante? Quem as aprecia? Porque não lêem os responsáveis, por exemplo, o jornal de páginas simples e humildes “O Gaiato”, e retiram daqueles textos dos padres da obra, assediados por todo o género de pedidos e sem poderem dar resposta, a lição do Padre Américo? Porque não encaminham para li alguns dos gastos supérfluos?

E, como é possível a Madeira gastar dois milhões de euros em iluminações e andar a mendigar para acudir aos prejuízos e às pessoas vítimas das calamidades que assolaram a ilha?

No passado domingo, cheio de sol, subiu ao nosso pensamento o bem que o astro Rei estava a fazer: aquecer aqueles que dormem numa enxerga com a luz da lua a iluminar o interior da barraca e os sem abrigo a descansar numa cama de pedra com a geada a branquear-lhes o papelão que lhes serve de manta e a companhia de algum cão vadio a partilhar o calor com os marginalizados. E, as luzes, ali acima, que não aquecem, a iluminar as paredes das ruas desertas e as casas encerradas, qual ironia aos miseráveis sem pão, casa, conforto, família e amor. Que triste realidade.

 

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