Opinião – Exclusão digital

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Fernando P.L. Boavida Fernandes

Tal como o analfabetismo priva as pessoas de entenderem muito do mundo em que vivem, a exclusão digital constitui, nos dias de hoje, um sério obstáculo ao acesso à informação, à cultura e ao desenvolvimento de indivíduos e sociedades.

As tecnologias da informação e comunicação (TIC) são indispensáveis para a sociedade atual, suportando todos os ramos de atividade, possibilitando todo o tipo de serviços – dos mais tradicionais aos mais inovadores – e criando condições para o fomento da atividade económica a nível global.

Por estes motivos, muito se tem debatido na última década a chamada infoexclusão, e inúmeras iniciativas têm sido levadas a cabo no sentido de a combater. Familiarizar os cidadãos com as TIC, instruí-los para que possam tirar melhor partido delas, incentivar a sua utilização, é algo de importância estratégica.

Não devemos, no entanto, exagerar. Longe vão os tempos em que tinha que se saber como funcionavam os computadores para utilizá-los. Hoje todos podemos, com alguma prática, tirar partido de um incontável número de ferramentas informáticas e de todo o tipo de dispositivos digitais. De facto, a tendência atual das tecnologias é a de se tornarem cada vez mais intuitivas, cada vez mais “conscientes” dos utilizadores, das suas preferências e dos contextos em que são utilizadas. Na realidade, pode dizer-se que uma tecnologia é tanto melhor quanto menos se nota.

É certo que, por muito amigáveis que venham a ser as TIC, haverá sempre alguma percentagem de infoexcluídos, percentagem essa que dependerá de muitos fatores, um dos quais será o grau de resistência à “infoinclusão”. Algumas pessoas têm fobia à utilização das TIC, outras têm simplesmente receio ou insegurança. Muitos outros motivos podem existir, mas o que é certo é que para certas pessoas a “infoinclusão” seria uma violência e só traria desvantagens. A propósito desses casos devemos lembrar-nos que a inclusão digital não é um objetivo em si e que o objetivo é o bem estar das pessoas.

Mas o pior lado da infoexclusão é o de dentro. Refiro-me aos que, sendo digitalmente literatos e, até, proficientes, se vão excluindo – quase sem se darem conta – do mundo real e se submergem irremediavelmente numa qualquer realidade virtual.

Esses veem o mundo através das tecnologias, interagem com outros apenas de forma remota, reduzem a vida a uma incessante interação homem-máquina. Esquecem-se de ver as coisas pelos próprios olhos, ignoram os que estão ao seu redor, deixam-se afogar por um devastador tsunami de dados. São essas as verdadeiras e mais dramáticas vítimas da exclusão que, essa sim, é absoluta e totalmente digital.

Talvez não fosse, assim, má ideia preocuparmo-nos mais com esses do que com os poucos que não querem utilizar as TIC. É que muitos deles pertencem às camadas mais jovens e, por isso, deles dependerá o futuro.

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