Opinião – Emigração forçada

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Aires-DinizO carpinteiro José, Maria e o filho recém-nascido tiveram um dia que partir pois o tirano, que governava o país, a isso tinha forçado pelo desemprego todos os homens válidos. Era um tempo difícil por uma estranha racionalidade ter imposto que muitos ficassem desempregados e sem saber como encontrar trabalho, enquanto os restantes ficavam sobrecarregados de trabalho e com baixos salários.

Um dia abeirando-se do Mondego, um velho botânico contou-lhe que havia lá longe uma Universidade, onde nunca faltava trabalho, que “ocupa um relativamente extenso tracto na margem sul do rio Sarkatchewan, do género do Mondego em Coimbra mas com mais água”.1 Contou-lhe até como tinha ido lá parar em fuga também a um tirano e a muitos mais tiranetes, os complicativos, que o não deixavam trabalhar por serem gente de uma elevada mediocridade. Eram coisas de uma universidade qualquer que José, pessoa simples não conseguiu perceber. Pensou muito nisso e como não queria abandonar o país, estando na iminência de ter de o fazer, logo pensou que até podia ser uma boa ideia ir para um lugar, onde veria uma paisagem semelhante à sua terra, matando assim saudades sempre que se abeirasse da janela sua casa. Sonhava.

Fez logo contas à vida, viu que o mago Gaspar, em vez de o ajudar, errava as contas e quando parecia que tudo se iria equilibrar, fazia novas contas e reduzia-lhe mais uma vez o salário. Estava assim José completamente desesperado. O mago Baltazar esse nem fazia contas e estava agora crivado de dívidas às finanças, que andavam atrás dele para ver se pagava os calotes. O mago Belchior andava completamente desesperado e só esperava que a estrela que o tinha guiado até à Lusitânia, reaparecesse para voltar à sua terra. Falando com ele, José logo pensou que podia ir toda a família com ele. Perguntou-lhe se havia lugar para ele, para a mulher e o filho. Perguntou-lhe se por lá havia frio e ele disse que era bem menos que na Lusitânia. Perguntou se havia guerras e ele disse que sim, mas que na cidade em que era Rei ninguém a fazia, limitando-se todos a trabalhar, sem pinga de inveja dos bens alheios. Também os banqueiros limitavam-se a pagar juros razoáveis e a emprestar a juros módicos e ele tinha feito leis contra a especulação, que não os deixava entrar em loucuras. Estava tudo bem regulado para que todos trabalhassem e ganhassem honestamente a vida. Não era preciso por isso qualquer política inevitavelmente “corretiva” que empobrecesse o povo. Belchior mostrava assim como com juízo e boas leis tudo correria a contento de todos.

Tendo surgido finalmente a Estrela, Belchior perguntou-lhe se queria segui-lo e lá foram José, Maria e o Filho para a terra prometida, só pensando em regressar quando o tirano se fosse.

 

1 Arquivo Distrital da Guarda, Referência: Cx. 14 – Dr.João Alexandre de Almeida, José Antunes Serra

 

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