Opinião – É uma tristeza

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João Boavida

O Governo anda desnorteado, mas muitos ainda ajudam à festa, acrescentando a desorientação e não percebendo (ou percebendo muito bem) que o prejuízo é geral. É claro que o Governo fez grandes disparates, desbaratando o capital de confiança e de esperança que lhe tínhamos dado e que tanta falta faz. Passos Coelho não percebeu o desgaste a que foi sujeito, numa altura em que tudo o que conseguisse em termos de confiança e de coesão era pouco.

Mas, apesar de muitas razões de queixa, isso não legitima a arruaça, nem a falta de nível. Ainda por cima explorada por uma comunicação social que (benza-nos Deus!) divulga e promove os “heróicos feitos” dos manifestantes profissionais. Perdeu-se um capital precioso, e isso é dramático. E é por isso que menos ainda se compreendem os discursos de certas pessoas, com obrigação de medir as consequências do que dizem. Acham-se no direito de incentivar a agitação social em discursos e comentários, o que é duma enorme irresponsabilidade.

Já nem me refiro àquela parte da Esquerda para quem esta erosão é muito boa, embora a eles também se aplique a crítica, claro. Mas penso sobretudo na grande massa, que vai tendo noção dos contextos e das condicionantes em que estamos metidos, e que dispensa estes mentores. E em todos os que sabem que se andaram a fazer asneiras, e que mesmo considerando a situação injusta, agora temos que a enfrentar. Situação injusta, e até pérfida, porque fomos, durante anos, seduzidos por uma estratégia de gastos, incentivada pelo crédito fácil, e agora somos apanhados à traição. Andaram a dizer: gastem, gastem, porque favorece a economia, e agora dizem: poupem e paguem porque o que se gastou não era produtivo. Tirando alguns, muito poucos (Ernâni Lopes, Ferreira do Amaral, Medina Carreira, Manuela Ferreira Leite) vistos, de resto, como aves de mau agouro, ninguém aconselhou prudência, mesmo os que tinham alguma obrigação de o fazer. A política era gastar, gastar, mesmo depois de se saber que já não tínhamos possibilidades de fazer moeda, e que o recurso ao crédito galopante era muito perigoso.

O certo é que, face às dificuldades, o País está a radicalizar-se, e a perder clarividência e compostura. E pior, a perder coesão porque há muitos a querer saltar da carroça dos esforços comuns, como se tivessem mais direitos que os outros. Aí está de novo o PREC, para o qual já manifestamos anteriormente bastante competência. Mas muitos dos que reclamam e fazem barulho são dos que menos motivos têm. Desde algumas das corporações tradicionalmente mais protegidas aos sindicatos das profissões mais bem pagas e poderosas. Ao fim de tantos anos de Democracia não conseguimos integrar harmonicamente estas aristocracias profissionais, nem fazer-lhes sentir que as formas de pressão que usam e que chegam à chantagem, são inaceitáveis em democracia e ofendem tudo e todos. E aí sim, as democracias deviam repudiá-las, e os média ajudar, porque toda a pressão que se faz assente na importância estratégica de uma dada actividade é moralmente inaceitável. É uma situação de desigualdade, logo, de injustiça. Podem-me dizer que é legal, que se respeita a lei, etc. Talvez, mas legalidade não é o mesmo que moralidade. Para quem tem défices de formação, moral e legal são a mesma coisa. Mas não são. Cegos ao bom senso fazendo o mal e a caramunha, transformam-se em multiplicadores ou divulgadores da desgraça muitos dos principais agentes dela. Mas lembremos da passagem de São Mateus: «Cegos são e condutores de cegos, e quando um cego guia outro cego ambos vão cair no barranco».

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