Opinião – É a curiosidade que salva o gato

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Victor Gil

Victor Gil

Não obstante o que têm de bom, muitas das histórias para a infância e adolescência deixam bastante a desejar e expressões como “A curiosidade matou o gato” podem ser mal interpretadas. A curiosidade, e não mera bisbilhotice, é um valor que deve ser reconhecido e desenvolvido desde tenra idade e nunca uma maldade a ser castigada.

A curiosidade não será uma característica exclusiva do ser humano. Mas só este é capaz de reflectir e fazer perguntas. Trata-se de uma capacidade de base genética. Em particular, a infância é uma fase de fervilhante curiosidade, com a criança em constante procura de desafios ao seu nível, inicialmente sobretudo na busca de afetos e emoções.

Mas é, também, influenciada pelo meio. Desde logo, se não for acarinhada, a curiosidade esmorece. Na verdade, a curiosidade é das poucas coisas que não se gasta; pelo contrário, cresce ao ser usada.

A curiosidade inata das crianças começa, é claro, antes das perguntas, com a exploração do mundo local através de competências sensoriais e afetivas, cedo acompanhadas das primeiras expectativas e surpresas.

Vêm, depois, as perguntas explícitas, quer suscitadas por um interesse prático directo, quer resultantes de uma curiosidade aparentemente desinteressada, umas e outras sempre em satisfação de uma verdadeira necessidade, sobretudo aliada à construção de um sentimento de segurança.

E não interessam apenas os “quês” (incluindo os “quantos”, “quandos”, “quens”, “ondes”, …) e os “para quês”, que solicitam sobretudo a memória, mas os “porquês”, os “comos”, os “e se”,… que desaguam em compreensão, apropriação inteletual e criatividade. Se quisermos, os primeiros garantem a erudição, os segundos a cultura, embora esta não seja viável sem aquela: não há “porquês” sem “quês”.

É, pois, imperativo para o desenvolvimento do indivíduo que a sua curiosidade genética seja amparada e alimentada pela sociedade, ela própria, por essa via, beneficiária deste empenhamento.

Neste contexto, sociedade resume-se, principalmente, à família e à escola, embora os novos meios de informação e comunicação em ambiente informal e não formal constituam, hoje, uma vivência que as crianças de há vinte anos não tinham neste grau.

Sucede que estes novos meios, proporcionando uma espantosa fonte de informação, são, também, uma manifestação da enorme multiplicidade de solicitações, dirigidas especialmente às emoções, que “tomaram de assalto” a sociedade contemporânea.

Por outro lado, a família nem sempre está preparada para as perguntas das crianças e, frequentemente, não encontra o tempo e a disponibilidade de espírito necessários.

Por sua vez, a escola nem sempre encontra as fórmulas que, não só permitam compensar as falhas da família, como desenvolver esta competência central que é a curiosidade dos mais novos.

Em conclusão, é urgente lançar, digamos, um “movimento” pró-curiosidade, de preferência nascido nas bases. Não, certamente, um conjunto de ideias e iniciativas retóricas, mas a criação de produtos e mecanismos que, depois de testados e validados numa fase piloto, possam ser devidamente alargados.

E, sendo as crianças de tenra idade os principais destinatários destes produtos e mecanismos, é indispensável apostar na dimensão afectiva e lúdica em associação com a relevância intelectual e a relevância prática.

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