Opinião – Annus horribilis

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Ricardo CastanheiraRicardo Castanheira

Fim do ano. Tempo de balanços. 2012 ficará para a história, do país e do Mundo, como um tempo difícil. Muito difícil, diria mesmo. Mais do que isso, atípico.

Dei comigo a ler as escolhas do ano no conceituado “Expresso” (mesmo depois de enganado pelo famoso burlão Artur, continua a ser reputado) e penso que ali está muito do que se passou nos últimos doze meses.

Quando a “Figura do Ano” é o contribuinte português, porque perdeu poder de compra e arcou nas costas com um fardo fiscal inimaginável, está tudo dito. Ou seja, um país que tem como fato mais relevante do ano o absurdo agravamento fiscal (acréscimo de 8 mil milhões de euros) e o consequente agravamento das condições de vida é um país em perda e a retroceder.

Durante muito tempo habituámo-nos a ver nas escolhas do ano cientistas, académicos, artistas ou até mesmo políticos. Sempre com um traço comum: algo positivo, prospectivo, inventivo e inovador. Algo que nos fazia bem à Alma e que traria frutos ao país. Hoje, mudou o paradigma: o relevo é dado ao contribuinte não porque passou a dispor de mais capacidade para investir ou consumir, mas, ao invés, porque estrangulado por um Governo miserável ainda consegue (não se sabe bem como) sobreviver e resistir.

Na verdade, o que a redação do “Expresso” quis destacar e homenagear – penso eu – foi a tenacidade e a capacidade de sacrifício do povo português. O contribuinte é metafórico. Por contraposição a um Estado devorador, descomandado e fiscalmente autocrata.

Aliás, não por acaso, a “figura internacional do ano” é Angela Merkel. A Chanceler corporiza a imagem do demo para o Sul da Europa. Protagoniza uma defesa a todo o custo da moeda única, sem rosto social e sem sensibilidade, de que os milhões de novos desempregados são a prova irrefutável.

Merkel, apesar de tudo, tem o mérito de representar um modelo europeu que alguns apreciam e outros (cada vez mais) não. Pois bem, resta-nos agora olhar mais atentamente para as coisas de Bruxelas e optar por uma nova europa. Bem diferente da atual.

Mas, muita atenção a quem comanda formalmente os destinos de Portugal, é que o “fato do ano” foi a Manifestação de 15 de Setembro, a maior desde 1974, ano histórico para Portugal. Ano das liberdades. Isso pode significar que o estoicismo do povo português tem limite, assim como a paciência. Obviamente, a democracia tem regras e fóruns próprios, mas as ruas são muitas vezes em tempo de crise as antecâmaras do poder…

 

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