Opinião – A voz

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João José Pedroso de Lima

Todos nós achámos que tinha sido a mulher do Ernesto a causar a sua morte. Não é que usasse venenos, armas de fogo ou armas brancas, não, era ela, ela própria, a arma letal.

Brigas, fugas e cenas, ano após ano, isto sem ele nos ter feito nunca qualquer alusão ao assunto, ou uma simples crítica que fosse… mas nós tínhamos presenciado várias e íamos sabendo doutras.

Assistimos à sua falta de vontade de viver, à sua decadência e, praticamente, ao seu último e sofrido suspiro.

Esta sucessão triste de factos ocorridos com uma pessoa boa, sensível, discreta e sempre amiga, causou-nos emoção profunda e revolta, mas foi Pedro, o que mais se manifestou.

“Com aquela regra nacional do entre marido e mulher… blá, blá, blá,…” deixámos o Ernesto viver no inferno durante décadas!

“Como vamos esquecer isto?”, continuava Pedro, no caminho para o velório, com a sua voz estranha, com diversos timbres na mesma frase. Esta era uma característica que não controlava e que só aos trinta e tal veio a descobrir estar relacionada com dotes vincados para a ventriloquia. Pedro, sem mexer os lábios, emitia vozes que pareciam vir de pontos distantes e com timbres modulados ao seu gosto. Com toda a facilidade, fazia aparecer uma voz à porta da sala onde estávamos ou, um alguém virtual, a chamar nas costas de um interlocutor. Fazia um rigoroso segredo dos seus dotes e eu era dos dois ou três que os conhecia.

No velório estava pouca gente porque era quase hora jantar. A viúva com os olhos vermelhos estava junto da mãe, volumosa e também de preto. Ao lado, o féretro de um castanho tropical mal emitado, com o pobre Ernesto lá dentro, com um lenço branco com rendas a tapar o rosto.

A viúva deitou-nos um olhar frio e distante quando nos viu, pois sempre nos evitámos, recíproca e metodicamente. Quando, lentamente, nos aproximávamos para lhe dar os sentimentos ultrapassou-nos o Padre Elias, o pároco, alto e bem penteado, um amigo da família que se dirigiu às duas senhoras.

Abraçou a viúva de modo longo e paternal e, depois, envolveu as mãos da pobre com as suas e disse-lhe o que nos pareceu serem ternas palavras de conforto e esperança.

Ela comoveu-se a tal ponto que aparentou ter tido um súbito impulso de se levantar e dirigir ao falecido, ali estendido, para o beijar.

Aproximou-se, inclinou-se, aproximou os lábios da face lívida e quando estava a levantar o lenço branco que cobria o rosto de Ernesto, ouviu-se a voz deste inconfundível e estranhamente colérica gritar: “Largue-me seu estupor!”.

A viúva deu um salto para trás e caiu, desamparada, sobre a mãe e o Padre Elias.

Seguiram-se momentos dramáticos.

A viúva, branca como a cal, soluçava trémula e inconsolável, a velha senhora que ficou com um pulso aberto, repetia “Foi o espírito dele, foi o espírito dele, eu bem te avisei!” e o Padre Elias não se cansava de dizer que os “desígnios do Senhor eram insondáveis”.

As poucas pessoas presentes benziam-se repetidamente e seguravam os terços com mais firmeza.

Nós, boquiabertos, não sabíamos o que fazer.

Só Pedro parecia satisfeito quando me disse, baixinho: “Se pias alguma coisa, quem te mata sou eu!“

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