Opinião – A quadra natalícia e o seu apelo à fraternidade e à paz

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MANUEL AUGUSTO RODRIGUESManuel Augusto Rodrigues

O Natal foi sempre uma data especial no calendário cristão, mas os não crentes em larga escala comungam da celebração desta data. Em Ano da Fé e de uma Nova Evangelização e a 50 anos do Vaticano II este Natal reveste-se de um significado particular. O apelo à «Paz na terra aos homens de boa vontade» sintetiza o conteúdo rico de tão significativa festividade que une as famílias, cria genuínos sentimentos de fraternidade e de abertura do coração. O Natal tem uma dimensão universalista.

A liturgia fornece uma imensidade de temas que enriquecem o espírito e nos transpõem para um mundo diferente do terreno. Retomando imagens de uma beleza extraordinária que os textos proféticos encerram, conduz-nos a uma interpretação do grande acontecimento quem abriu ao mundo perspectivas inovadoras orientadas para a salvação. Os hinos “A solis ortus cardine” e “Christe, redemptor hominum” e uma infinidade de cantos como o “Adeste, fideles” procuram enaltecer o mistério e traduzir a alegria e a esperança. Nesta quadra o homem como que para e entra no mais íntimo do seu ser. O Lógos que é a Palavra instalou-se na Terra para comunicar os caminhos da verdade, da justiça, do amor e da paz. O silêncio da noite sagrada contém uma mensagem de amor e de reflexão.

S. João fala do Lógos que esteve no princípio de todas as coisas e, chegada a plenitude dos tempos, no início de uma outra fase da história, se fez carne e habitou entre os homens («In principio erat Verbum….et Verbum caro factum est»). Ele é a luz que ilumina e dissipa as trevas da mente e é a vida que garante a existência no seu verdadeiro sentido. S. Leão Magno escreveu: «Ponhamos de parte, portanto, «o homem velho com a sua conduta anterior» (Ef 4, 22). Reconhece, ó cristão, a tua dignidade e não queiras voltar à abjecção de outro tempo levando uma conduta indigna. Recorda que, resgatado do poder das trevas, passaste para a luz do Reino de Deus».

A literatura, a arte e a música inspiraram-se no nascimento de Jesus que deu origem a obras inesquecíveis. Milton compôs a “Ode au matin de la Nativité”; são célebres as criações de Giotto na basílica inferior de S. Francisco em Assis e o de Botticelli que se encontra em Londres; Bach compôs o famoso “Oratório de Natal” e Olivier Messiaen “A Natividade do Senhor”. Entre nós igualmente foram muitos os que à luz do Natal deixaram testemunhos eloquentes da novidade, em que o presépio figura como o seu símbolo mais expressivo.

A quadra natalícia tem no dia 1 do Ano Novo o seu ponto alto. A Igreja desde há anos dedica-o à festividade de Maria Mãe de Deus e à Paz. É já tradicional a Mensagem que o Papa dirige ao mundo nesta ocasião. Desta vez o tema escolhido é “Bem-aventurados os obreiros da paz” (Mt 5, 9). A Mensagem que é uma mini-encíclica está dividida em sete pontos: depois de falar do significado das Bem-aventuranças, Bento XVI aborda os temas seguintes: a paz, dom de Deus e obra do homem; os seus obreiros que são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua integridade; a construção do bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia; a educação para uma cultura da paz em que é preponderante o papel da família e das instituições; e, finalmente, uma pedagogia do obreiro da paz.

O Pontífice escreve que os autênticos agentes de paz devem prestar atenção à dimensão transcendente e ao diálogo constante com Deus. O pecado manifesta-se através do egoísmo e da violência, da avidez e do desejo de poder e domínio, da intolerância, ódio e estruturas injustas, nos atentados à dignidade da pessoa humana, à vida e à família. O Pontífice lembra que a Paz não é apenas ausência de guerra. No seu sentido genuíno (segundo o termo hebraico shalôm) significa plenitude, realização perfeita, harmonia do homem e da sociedade e fidelidade à consciência bem formada. O nosso tempo, caracterizado pela globalização, com seus aspectos positivos e negativos requer um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo o homem e do homem todo. Lê-se na Mensagem papal: «O desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é feito para a paz, que é dom de Deus».

O Papa Bento XVI pede «um renovado e concorde empenho na busca do bem comum, do desenvolvimento de todo o homem e do homem todo». Refere-se à realidade do nosso tempo que é ainda marcada por sangrentos conflitos e por ameaças de guerra; às crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado; às variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional e aos fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza da religião.

A terminar, diz: «É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. Jesus encarna o conjunto destas atitudes na sua vida até ao dom total de Si mesmo, até «perder a vida» (cf. Mt 10, 39; Lc 17, 33; Jo 12, 25)».

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