Opinião – A educação e a cultura são investimentos

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Joaquim Norberto Pires

Impressiona-me muito o momento em que vivemos e esta deriva de salvadores do mundo e da nossa desgraça. O que enfrentamos é um problema de todos nós, e não do Governo ou do primeiro-ministro em particular. E muito menos é a “é fatura e a conta de anos de despesismo”, como disse um deputado do CDS no debate final do orçamento de Estado de 2013, mas antes o resultado de dezenas de anos de irresponsabilidade em que não se fizeram escolhas conscientes e verdadeiramente participadas. A única esperança que tenho de que isso alguma vez se faça é a firme confiança que tenho na cultura e na educação. Porque só pessoas cultas, com mundo, bem formadas, que ouvem, lêem, pensam, debatem e não têm medo de formular uma opinião, é que são capazes de opções verdadeiramente conscientes e que tenham algo de colectivo.

É muito por isto que a Cultura e a Educação não podem ser negócios, nem podem ser encaradas como mera despesa. São um investimento de médio e longo-prazo, cujo retorno não é directo nem imediato. Devem, por isso, ser financiados pelo Estado, de forma continuada, porque fazem parte de uma vontade firme do povo português de atingir patamares cada vez mais elevados de desenvolvimento, de qualidade de vida e de preparação para enfrentar as dificuldades do mundo moderno. São um investimento muito sério, e o mais eficaz, na luta contra a ignorância, contra as desigualdades e contra a pobreza.

Impressiona-me por isso, e cada vez mais, a ligeireza com que se fazem propostas de privatização da Educação, em detrimento da Escola Pública. Os argumentos são sempre os mesmos: a eventual incapacidade do Estado para gerir os dinheiros públicos, e o direito a escolher a educação que cada um quer para os seus filhos. Acresce, como os portugueses começam a perceber, que a “boa gestão” das parcerias público-privadas se resumiu a entregar o risco ao Estado, ficando a parte privada com a esmagadora maioria dos proventos. Foi assim, com enganos, que se construiu esta gigantesca dívida que temos pela frente. Desinvestiu-se na cultura, porque isso não enche a barriga e é para ricos. Aparentemente apoiar a cultura é fazer obras gigantescas, dar nas vistas com nomes sonantes, fazer fogachos momentâneos para impressionar, em vez de ser um trabalho continuado na dinamização do gosto pela leitura, pela história e pelo seu legado, pela música e pelas artes, pela reflexão, pela divulgação e discussão de ideias, pelo incentivo à participação na vida de um país e na discussão do seu papel no mundo. Investir na cultura é investir na abertura de horizontes, é dar mundo às pessoas, é permitir-lhes uma visão mais alargada, global, informada, e em perspectiva, daquilo que as rodeia. É investir na sua capacidade de observar, refletir e julgar de forma mais consciente. É aumentar a sua capacidade de identificar e resistir a enganos.

É a ausência de tudo isto que adia a reforma de um Estado que gasta demais, sem racionalidade, sem responsabilidade e sem responsabilização. É ausência de tudo isto que desvaloriza a importância do exemplo, e não mostra que os dinheiros públicos se devem gerir com a mesma dedicação e cuidado com que se gerem os bens próprios. É tudo isto que menoriza a frugalidade de meios e a obtenção de resultados sustentáveis, que constituem os verdadeiros ganhos civilizacionais. Notícias recentes mostram como são apetecíveis estes negócios da Educação e da Cultura. Há ganhos de curto prazo, e muita gente com vontade de lhes deitar a mão. É importante que tenham consciência disso, mas se calhar já é tarde demais.

 

(artigo também publicado no re-visto.com)

 

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