“A voz da Igreja é muitas vezes desvalorizada”

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Foto Gonçalo Manuel Martins

Foto Gonçalo Manuel Martins

A Conferência Episcopal Portuguesa emitiu um pedido para maior solidariedade nesta época do Natal. Concorda?

Com toda a certeza. Nós estamos numa situação tão difícil a diversos níveis que, devido às dificuldades económicas, leva a consequências sociais. Isto afeta de um modo muito particular as camadas mais pobres ou as que já tinham poucos recursos e que agora, pelo facto de não terem trabalho ou terem perdido algumas regalias, acabam por ficar numa situa-ção difícil. Desta forma, tudo o que puder ser feito numa altura como esta ou durante todo o ano em favor das populações mais pobres é muito importante.

De que forma é que a diocese vai participar neste pedido?

A diocese tem no terreno algumas respostas. Temos uma grande instituição a trabalhar no terreno – Cáritas Diocesana – que age a muitos níveis. Tem um trabalho habitual na assistência à terceira idade e junto das crianças e populações mais pobres. No fundo, trabalha com as populações de maior risco. Falo dos toxicodependentes, sem-abrigo, entre outros. Está ainda a funcionar o fundo solidário e que tem socorrido muitas das pessoas que pretendem a sua ajuda. Ou seja, tem distribuí-do o fruto da solidariedade existente na diocese. Há ainda, numa proximidade muito maior às populações, um trabalho feito pelas paróquias, pela Conferência de S. Vicente de Paulo e pelos grupos caritativos que existem localmente. A sua proximidade com as populações leva a que conheçam as suas dificuldades e tentem, desta forma, ajudar nas situações que podem fazer toda a diferença.

Acha que chega?

Claro que não. Isto é uma gota de água no meio deste grande mar de dificuldades que estão a viver as pessoas.

À porta da diocese, costumam chegar situações problemáticas?

Batem à porta das instituições da diocese.

E na Casa Episcopal?

Também aparecem alguns casos, mas de facto não podemos dizer que aparecem em número elevado. Às vezes, nos serviços da diocese aparecem pessoas que pedem uma ajuda para pagar a renda de casa, os medicamentos, a electricidade ou a água. Tentamos sempre encaminhar estas situações para os órgãos diocesanos com capacidade de socorro.

Reconhece então que os pedidos são maiores do que as possibilidades?

Sim. A pequena necessidade da comida ou dos medicamentos são fáceis de solucionar. Agora, quando entra para a questão das prestações da casa ao banco ou do carro, percebemos facilmente que não temos capacidade para socorrer muitas vezes estes problemas.

O crescente aumento do desemprego no distrito é uma das suas preocupações?

Não só no distrito, como também no país todo. Conheço muitos casos de pessoas com cerca de 50 anos ou um pouco mais novos que sempre trabalharam e tiveram uma situação estável, mas que de um momento para o outro se vêm a braços com o desemprego. Ainda mais com compromissos assumidos e um estilo de vida próprio, mas que de um momento para o outro se vêm sem meios financeiros. Isto obriga a mudanças, não só a nível económico, como também a nível social. A minha preocupação vai também para as camadas mais jovens. Todos aqueles que estão a concluir os seus cursos, e perante a falta de opções de emprego, são obrigados a fazer mestrados meramente para ocupar o seu tempo. Esta situação compromete o seu presente e o seu futuro. Preocupa-me ver as novas gerações a terminarem os cursos, nalguns casos de forma brilhante, e não verem um futuro profissional pela sua frente. Isto depois leva a consequências a nível familiar, pois não existem condições para constituírem família nem ter filhos. Isto é altamente prejudicial para uma sociedade se desenvolver e crescer.

Acha que o Governo mostra alguma sensibilidade social ou só vê números?

Eu acho que, em Portugal, não há ninguém que só veja números. Isso é um chavão e muitas vezes surge sem que as pessoas vejam o alcance das suas palavras. Nós estamos numa situação que é muito complicada e em que os números são uma parte da questão. Mas a realidade não se reduz só a números. Há as outras dimensões, como seja a vertente social, a pessoa humana com os seus direitos e deveres. Eu julgo que as pessoas sensatas deste país sabem ver para além dos números.

Mas perante o corte de quatro mil milhões de euros para o próximo ano, em boa parte no setor social, isso não é olhar apenas para os números?

É um corte que me preocupa. Nem precisaria de ser tanto para me preocupar. O que precisamos de saber são as saídas que temos para esta situação. Há quem aponte alguns rumos, mas julgo que nesta questão não podemos ser simplistas nem pensar que se resolve só por si. Os cortes não podem e nem devem afetar as pessoas mais pobres. A austeridade tem de estar ao serviço do desenvolvimento do país, da criação de emprego e da solução dos problemas sociais.

Acha que a solução defendida pelo Governo é a que melhor serve o país?

Não lhe sei dizer. Há uma parte da sociedade portuguesa que pensa que sim, há outra que pensa que não e há outra que pensa que tudo tem de ter conta, peso e medida. É muito difícil ter este equilíbrio. Não me sinto capaz de fazer uma análise macroeconómica.

Os políticos ouvem a Igreja?

Os políticos não ouvem muito a voz da Igreja. E deviam ouvir porque a Igreja aponta alguns princípios que são fundamentais e procura colocar-se do lado das pessoas com menos possibilidades e menos recursos. Este não é um fenómeno de hoje, mas das últimas décadas.

Os bispos deveriam ter uma voz mais ativa nas políticas sociais?

Devemos ter uma voz mais ativa, mas não nos devemos meter em questões políticas nem selecionar, aprovar ou defender certas medidas. Tem de haver uma separação de poderes entre o que é a Igreja e a política. Aos bispos compete apontar princípios gerais que nascem da doutrina social da Igreja e, nos casos em que se atropela de forma grave os direitos das pessoas, devemos levantar a voz em favor dos mais desfavorecidos e mais pobres. Não nos devemos meter nestas questões das políticas concretas. Talvez devesse ter um papel mais relevante e uma voz mais ativa na vida dentro da nossa sociedade e uma voz que devia ser ouvida, quer se concorde ou não. O que acontece é que a voz da Igreja é muitas vezes desvalorizada.

Porque é que isso acontece?

Há muitos preconceitos relativamente à Igreja, à fé cristã e à dimensão religiosa da vida em geral. Esses preconceitos de um laicismo exacerbado impedem as pessoas de ouvirem a voz da Igreja.

O que sente quando tem conhecimento de que há crianças a chegar às escolas com fome?

Faz-me doer a alma. Principalmente, porque estamos a falar de crianças e porque acabam por ser as vítimas principais de uma situação de crise que afeta muitas famílias. Mas não são só as crianças. Os idosos também me preocupam, principalmente o seu abandono.

O encerramento do Seminário Maior de Coimbra foi uma perda para a diocese?

É claro que sim, pois deixamos de ter a funcionar, em Coimbra, uma instituição com o peso e tradição que o seminário tinha. Estamos a falar de uma entidade que funcionou sempre em Coimbra de forma ininterrupta durante 250 anos. É uma perda que todos nós lamentamos e que custa a toda a diocese. Mas perante a situação em que se encontrava não restava outra opção. O reduzido número de alunos e a necessidade de manter uma escola de teologia com a qualidade que ela merece levou a que tomássemos esta opção. Aliás, o fecho já estava a ser preparado há algum tempo, quando deixámos de ter presentes algumas dioceses que faziam a Teologia nesta cidade.

Em seu lugar, vai surgir um Centro Pastoral Diocesano. O que vai ser este centro?

O Centro Pastoral Diocesano vai surgir no edifício do Seminário Maior. Um espaço que precisa muito de obras, porque apenas tem tido as reparações necessárias para o seu funcionamento diário. Ou seja, precisa de obras que adaptem o espaço às comodidades dos dias de hoje. Estamos, então, a tratar do processo de requalificação do conjunto arquitetónico. Quanto ao centro pastoral, é uma realidade que nos faz falta e que funciona em condições muito precárias. Precisamos de um lugar onde possamos concentrar todos os serviços da diocese. É possível dar condições melhores a estes serviços. Fecham-se algumas portas, mas felizmente abrem-se muitas outras.

Mas é para avançar com a reparação total do edifício?

É uma obra que pretendemos fazer ao longo dos próximos anos. Para já, vamos avançar com obras nalgumas zonas para que seja possível instalar da melhor forma alguns dos serviços que estão em piores condições.

A nova evangelização é uma das prioridades do trabalho da diocese. De que forma isso será feito?

Nós temos um clero com poucos elementos e uma faixa etária alta, mas que trabalha em várias paróquias distantes entre si alguns quilómetros. O seu trabalho é, a todos os títulos, meritório. Ao mesmo tempo, temos a trabalhar na paróquia um conjunto de homens e mulheres cristãos que assumem, nas suas próprias mãos, a condução dos dinamismos da Igreja em diversas áreas. Quando fizemos em outubro a abertura do ano da fé tivemos meio milhar de pessoas (homens e mulheres das mais variadas profissões e variados níveis de formação) que têm nas suas mãos a condução das comunidades locais paroquiais. Temos de potenciar esta força.

De que forma?

Já em Janeiro iremos ter o bispo de Toulon, Dominique Rey, que irá dar um grande contributo em termos de evangelização. Está muito por dentro desta situação e acredito que irá ajudar a criar o dinamismo local para a evangelização.

Quantos párocos precisava na Diocese?

Com exatidão, não lhe posso dizer. Nós temos cerca de 260 paróquias, algumas delas com dezenas de milhares de moradores e outras com apenas uma centena de habitantes. Se tivéssemos entre 40 a 50 sacerdotes com meia idade ou até jovens nos lugares-chave, não teríamos tantas preocupações. Mas a Igreja é assim mesmo: estamos habituados a viver com os recursos que temos a nível económico e humano. Estamos habituados a sentir que a sua ação depende do fator humano, mas depende mais de outro fator: fator divino. A ideia de pensar a Igreja apenas pelo fator humano não corresponde à índole e à sua dimensão teológica.

Como comenta as recentes notícias do seminário do Fundão?

São notícias pouco positivas para a Igreja. A nível mundial, tivemos grandes escândalos de pedofilia nos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha e Áustria. Deixou uma marca interior e uma mágoa, pois para além de não serem esperadas em lado nenhum, muito menos são de esperar dentro da Igreja. No fundo, deixam marcas e obrigam a reflexões.

Se tivesse ocorrido em Coimbra, como lidaria com o assunto?

Faríamos o que está previsto pela Santa Sé, ou seja, procurar que seja feita justiça e se esclareça tudo o que tem de ser esclarecido. E sem ter nada para esconder, de forma a apurar toda a verdade.

Em que ponto está o processo de beatificação da Irmã Lúcia?

Foi um dos processos do qual tentei inteirar-me logo que cheguei à Diocese de Coimbra. Até porque grande parte do mundo católico espera e deseja que o processo avance rapidamente. O meu antecessor já tinha pedido ao Vaticano a dispensa dos cinco anos necessários para se avançar com o processo. Um pedido concedido, mas que apenas encurtou um processo que já por si é muito moroso. E mais ainda no caso da Irmã Lúcia. Porque, para além das obras publicadas, há todos os escritos não publicados e que correspondem a milhares de cartas.

Cartas que estão a ser analisadas?

Claro que sim. As cartas têm de ser transcritas e analisadas pela Comissão Histórica, a quem cabe a emissão de um relatório sobre as virtudes e ortodoxia da fé. É um trabalho muito moroso, mas que estará a chegar à fase conclusiva. Mas, pela frente, ainda há um tribunal que tem de ouvir as testemunhas que contactaram com a Irmã Lúcia. Gostávamos que o processo fosse rápido, mas as coisas têm de levar o seu tempo.

One Comment

  1. Zé da Gândara says:

    “A voz da Igreja é muitas vezes desvalorizada”… Vindo de quem vem, é caso para perguntar se é para rir… Falta a este senhor lembrar-se de que quem não respeita, dificilmente será respeitado… Falsas virgens pudicas é coisa que abunda… Vendedores de banha da cobra, idem aspas aspas…
    Posto isto, bem que o referido se poderia remeter ao silêncio porque a dicotomia entre discurso e prática da ICAR já fede… E andar a ouvir baboseiras é quase tão aviltante para a dignidade humana de quem as tem de ouvir que deveria pagar imposto… de forma a moderar o ímpeto de quem não se coíbe de as continuar a debitar…

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