Um euro para a Nilce pagar as propinas

“Tive vergonha. Não é tão simples assim”. Nilce Vicente Carvalho, 29 anos, diz ter demorado três meses a escrever a mensagem que hoje figura numa página do facebook, pedindo a cada um dos seus 1.200 amigos virtuais que contribuam com 1 euro para conseguir pagar as propinas.

Numa semana, conseguiu angariar cerca de 570 euros. “Fico muito sensibilizada porque recebi mensagens de incentivo e contribuições de pessoas que nem sequer me conhecem”, diz.

Começou a trabalhar no campo aos 13 anos

A verdade é que a vida de Nilce – que terminou há pouco mais de uma semana o mestrado em Teatro e Artes Performativas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – nunca foi fácil. Natural de uma aldeia perto do Cartaxo, Nilce começou a trabalhar no campo aos 13 anos, durante os meses do verão, na apanha da pêra e nas vindimas. Fazia-o para ajudar a mãe, com quem vive sozinha desde os oito. Cresceu com o sonho de tirar um curso superior, de estudar teatro. Não havia de desistir.

Bolsa de 98 euros por mês

“Trabalhei três anos antes de vir para a faculdade. Habituada a “contar tostões” foi fácil gerir-me com o dinheiro da bolsa de estudo durante o ano letivo. Até ao dia que me disseram: a sua mãe recebe o ordenado mínimo, pagam 250€ de renda, têm mais despesas do que receitas,” pode ler-se na mensagem que escreveu no facebook na última noite que passou em Coimbra. Nilce explicou, então, que recebia ajudas alimentares de uma tia e que pagava as propinas com o dinheiro que recebia na campanha da fruta no verão. A assistente social aconselhou-a a declarar o valor que recebia no verão e os bens alimentares, caso contrário perderia o apoio. Foi o que fez. A bolsa passou de 350 para 98 euros por mês. Dias depois, Nilce lesiona o joelho e vê-se a mãos com uma despesa de 80 euros mensais em fisioterapia.

Fundo Solidário do Instituto Universitário Justiça e Paz

Nessa altura, diz ter contado com muitas ajudas, sem as quais não teria conseguido continuar a estudar. “Eu morava na residência São Salvador e as minhas colegas ajudaram-me muito”. Nilce confessa que teve que pedir dinheiro emprestado a amigos para poder continuar os estudos. Que os padrinhos chegaram a enviar-lhe um cartão do hipermercado com 50 euros para gastar em comida. Que, durante dois anos, só pôde visitar a mãe no Natal, na Páscoa e nas férias de verão. Perante uma vida cheia de dificuldades, é compreensível que afirme, vezes sem conta, que “o dinheiro só complica as coisas”.

Para pagar as propinas de 2010/2011, Nilce chegou a recorrer ao Fundo Solidário (projeto do Instituto Universitário Justiça e Paz) Durante o ano passado foi dando algum dinheiro para “compensar” a ajuda que lhe deram. Desta vez preferiu não recorrer ao fundo. “Os alunos que ainda não terminaram precisam mais do que eu… Sobretudo, tendo em conta os cortes que tem havido”, afirma.

Apesar da perseverança, Nilce acabou por admitir que “a força de vontade não chega”. Então um dia pensou: “se cada amigo meu me desse 1€, conseguiria pagar as propinas e ainda me sobrava dinheiro para pagar o certificado”.

O apelo (disponível no facebok em “1€ para a Nilce”) emocionou amigos e desconhecidos, de tal forma que numa semana, a antiga aluna já conseguiu quase metade do valor da propina.

Tem razão, a Nilce, quando numa fotografia que publica, afirma: “o poder dos laços é mágico”. O dos sonhos também.

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