Opinião – Uma carta

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Francisco Queirós

Novembro de 2012. “ Olá querida mãe! Escrevo-te esta carta para desabafar contigo o que me atormenta. O país está de pernas para o ar como traduz a sua bandeira hasteada nas cerimónias oficiais da comemoração da República. Um feriado nacional que também já o não será nos anos mais próximos. Depois da visita da senhora Merkel, a procuradora da grande banca que tutela o país, há uma greve geral. Num cenário de desemprego jamais visto e em que a precariedade do trabalho atinge níveis recorde, com a greve alcança-se um novo e muito elevado patamar de resistência e de luta. Mesmo os que não lutam, por força de uma apatia que é hábito ou de um medo que é atávico, sentem-se solidários com os que se mobilizam. Já não há lugar para os indiferentes.

Portugal vive um dos mais dramáticos momentos da sua história. Um governo e uma maioria de partidos de regime, vulgarmente designados do arco do poder, convivem, com muito mais que um enorme incómodo, com uma agressão externa pela qual só se podem também sentir responsáveis. Portugal está cercado! Portugal vive sobre uma feroz ocupação de uma tríade de senhores sem rosto, capitalistas de casino, servidos por pequenos “croupiers”, capatazes e outros figurantes de uma criadagem de opereta. Ninguém acredita no que dizem, ninguém confia no que propõem, ninguém os respeita. E eles sabem! Mas fingem que não sabem, fingem que acreditam que alguém os ouve. Jogam ao faz-de-conta, como alienados aos pulos no recreio do hospício.

Lá fora a vida continua. Lá fora o mundo move-se, mesmo que empurrado para trás por forças titânicas. Lá fora há um preço de sangue que não é um faz-de-conta. Mulheres e homens sem trabalho. Uns descrentes, outros em fuga, atrás de terras onde o sonho não tenha sido proibido. Mulheres e homens que contam e recontam as moedas únicas de um orçamento minguado e que vão mirrando enquanto a alegria, a esperança e a dignidade rompem corpo fora, espalhadas ao vento que não sabe se canta ou se cala a desgraça colectiva. E o mar se faz mar de novo e se repovoa de adamastores importados de “off-shores” e paraísos fiscais. E as fronteiras fazem-se a “salto”, com barreiras alfandegárias esculpidas no coração dos velhos e tatuadas nos mais jovens.

Então, Portugal não é homem nem é nada!? Muito menos um colo de mãe!? E só não é uma madrasta, má por definição, pois as famílias modernas, nesta época agora acusada de múltiplos crimes de “fartar-vilanagem” e vidas vividas muito acima das possibilidades dos pobres, são muito diferentes do que foram outrora e já nem as madrastas são o que costumavam ser. Mãe, cá a vida continua. Lenta e calma, silenciosa e obediente, submissa, roubada, rendida. Ou nada disso! Porra, mãe! Pode lá ser possível… Comigo não! Beijinhos.”

 

One Comment

  1. Excelente!

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