Opinião – Tempo de mudança e de resiliência

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Paulo Fonseca

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmo lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Lembrou-me esta reflexão de Fernando Pessoa pelo facto de ser esta a última crónica que escrevo neste jornal nesta condição, e escolhi premeditadamente este título para que, a partir dele, me deixasse levar de uma forma despojada até onde “ele” quisesse. E levou! Levou-me para as questões da resiliência que mais não são do que saber se após o confronto com situações adversas voltamos ou não ao nosso estado emocional “normal” ou até, se perante essas dificuldades encontramos ou não forças para nos superarmos e sairmos mais fortalecidos.

É este ponto em relação ao qual temos que reflectir, como dizia Pessoa.

O que foi curioso foi encontrar grandes similitudes neste processo, que se encontra “em curso”, entre o que se passa na classe farmacêutica e o que se passa com o país e os portugueses. E não é presunção minha pensar assim, pois se o povo português está sujeito a uma força de torção que não tem paralelo na era contemporânea, aos farmacêuticos praticamente tudo lhes foi retirado nos últimos 7 anos e se os portugueses não conseguem ver qualquer luz que os oriente, os farmacêuticos não vislumbram qualquer inversão de sentido nas reformas a que foram sujeitos.

Mas, é sobre estes últimos que gostaria de ir mais longe. As elites sempre tiveram um papel chave no desenvolvimento das sociedades e quanto menor for a tribo em questão (no sentido antropológico do termo), mais essas elites são importantes. No caso dos farmacêuticos em particular, considero que a intervenção em uníssono das suas elites é um aspecto sem o qual não há retorno possível. E isso só se consegue em união de esforços, de vontades e de ideias, situação esta que ainda não foi conseguida na classe farmacêutica.

Sim, porque união é darmos as mãos em cadeia, é fazer de cada elo – Ordem, Universidades, Associações, Estudantes, Profissionais – um elemento essencial que será tanto mais forte quanto mais forte for a cadeia de união que a prende. A união, numa classe de reduzida dimensão como a dos farmacêuticos, apenas cerca de 13.000 almas, é fazer com que nos tornemos numa imensa minoria que sabe o que quer por direito próprio. A nossa resiliência afinal não seria mais do que a nossa capacidade de nos unirmos, numa união forte que nos daria força e ânimo para enfrentarmos e superarmos os problemas e adversidades que hoje sentimos.

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