Opinião – Glória em saldo

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Gonçalo Capitão

Tive o privilégio de assistir aos dois jogos entre a Académica e o Atlético de Madrid. Assim, com alguma ginástica financeira e guardando férias para o efeito, cá fui de África à Pátria, com a certeza de que iria presenciar momentos únicos de uma devoção de anos e com a sensação de que poderia ser em letra grande que se escreveriam mais umas páginas de uma gloriosa e briosa História recente.

Se em Madrid “estava bonita a festa, pá” (adaptando a canção do enorme Chico Buarque) e a prestação foi digna, já em Coimbra a coisa adquiriu contornos épicos. Efectivamente, os poucos espanhóis que foram ao Estádio Vicente Calderón viram uma equipa com um orçamento centenas de vezes menor mostrar que a beleza da competição desportiva está não apenas no potencial de cada atleta, mas na capacidade de superação que o grupo encontra, mormente quando enquadrado por uma instituição que transmite uma maneira peculiar de estar no desporto e na vida, designadamente através dos seus adeptos (destaque para a imensa e intensa Mancha Negra) e dirigentes.

Em Coimbra, este sortilégio ganhou foro de prova concludente; a incansável claque (e mais “meia dúzia” de adeptos individuais) transcendeu-se e a equipa jogou o que sabia e o que não sabia, derrotando nada mais nada menos que o detentor da Liga Europa. Alguém na Europa de Futebol (tirando os academistas) imaginaria uma noite assim? E nem vale, como cortesmente reconheceu o treinador adversário, brandir a carta da falta de cinco titulares (que, aliás, foram poupados em todos desafios europeus anteriores, sobretudo no caso de Falcão); esse é um problema do Atlético, que percebeu que a camisola em si não mete medo a ninguém…

O “senão” de tudo isto é vermos uma Cidade cheia de tradição que não sabe honrar uma das poucas instituições que ainda lhe dá projecção nacional. A assistência ao jogo em casa foi miserável, vergonhosa e mesmo acintosa para os atletas que, repito, foram extraordinários.

Ponhamos, porém, as coisas en su sitio: têm as pessoas de Coimbra obrigação de ir ao futebol? Obviamente, não. Valeria, todavia, a pena que não se reunissem, quase todos os dias, a pedir mais e a criticar o que é feito. É básica a lição de Cícero sobre a necessidade de envolvimento cívico para os que desejem influenciar positivamente uma colectividade. E note-se que, perante esta omissão, se torna legítimo concluir que a esmagadora maioria da Cidade e da Região “está-se nas tintas” para o escalão em que milita a equipa ou para o grau de fidelidade académica observado.

Chega a parte em que pode ser brandido o elemento da carência económica das pessoas, o que, em muitos casos, será sério e respeitável. Contudo, a deserção é muito anterior à crise, relembrando eu que há bilhetes de época mais baratos do que a assinatura de um mês da SportTv, desculpa comum para muitos que ficam a ver o Benfica ou o Real Madrid…

Voltaremos ao tema…

5 Comments

  1. Sócio AAC says:

    Tem toda a razão, Gonçalo !
    Infelizmente muitos conimbricenses preferem apoiar clubes de outras cidades e regiões que nada têm em comum com a nossa cidade apenas porque se auto-intitulam de "grandes".
    Dos 3 "grandes" sou da Académica !

  2. Dos três grandes também SOU da Académica! O artigo está excelente. Retrato fiel da Coimbra das doutorices e dos doutores! E, sobretudo… das borlas!!!

  3. Paulo, ex sócio says:

    Dos 3 grandes sou do maior deles, do Benfica. Sou licenciiado na Universidade de Coimbra e resido nesta cidade há 26 anos, onde nasceram os meus filhos. Quando vim estudar para Coimbra fiz-me sócio da Académica OAF, pois da Associação Académica já o era por direito próprio e sem quotas ou propinas! Passados alguns anos e tendo ficado por cá decidi deixar de ser sócio do OAF, porque concluí que este de académico nada tem, só o que conseguiu sonegar à AAC, nomeadamente parte do nome, as cores e o emblema. Por esta razão e outras mais polémicas que, por recato, não menciono, deixei de apoiar a AAC OAF. Ademais, segundo parece, o presidente desta agremiação, híbrida, não gosta que os adeptos dos 3 grandes, nomeadamente do maior deles, SLB, sejam ao mesmo tempo simpatizantes, apoiantes ou sócios do OAF. Aqui lhe deixo o agrado, não me revejo, apoio ou simpatizo com este OAF.

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