Opinião – Duas escritoras e três livros

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Mário Nunes

Recebemos e lemos, recentemente, três livros de duas escritoras, que abordaram poesia, história e romance. “Da cidade do campo dos sorrisos”, uma obra de Margarida Oliveira condensa, num rosário de poemas, o seu amor ao campo, exaltando a beleza das coisas simples da aldeia e a pródiga natureza. Desprende-se do trabalho publicado uma inquestionável sensibilidade, produto do saber e da observação. Nele se entrelaçam os valores que concorrem para tornar mais bela a terra, as pessoas e os ambientes. Poesia que se desdobra, primeiramente, na contemplação de um espaço territorial, o concelho de Penela, sobretudo a freguesia do Espinhal, onde a grandeza da paisagem e a pureza da ruralidade, se aliam e entrecruzam na emoção, nos sentimentos, nas memórias e na saudade, convidando à interiorização e fruição das riquezas humanas, históricas, patrimoniais e naturais que fecundam este lugar de eleição. E, naquele abraço poético, da matéria com o espírito, Margarida Oliveira transporta-se depois para a cidade, relacionando as vivências deste espaço com as do campo no propósito de relacionar os contrastes e equacionar as diferenças. E, como a poesia não se explica, mas tem a força de comunicar, a escritora oferece da sensibilidade da sua alma, um repositório de valores abrigados na intimidade e estima do seu ego. Há na sua poesia uma mística que a afaga, fruto de uma “claridade” natural que marca a sua vida, levando-a a ensinar, que a poesia, como escreveu Vergílio Ferreira “não se consome num minuto e tal como a vida deve ser vivida de vagar e sem pressas”. O seu livro é fruto dessa máxima.

“O moinho da maré de Corroios”, também de sua autoria, resulta de um estudo de campo que se harmoniza com a oralidade e que pretende registar para a posteridade, um ofício em extinção, moleiro, e a técnica da energia das marés que tende a ficar no baú das coisas “velhas”. Neste trabalho histórico, antropológico, etnográfico e geográfico constata-se que foram modelares e inovadoras, naquela época, as técnicas e as capacidades criativas do Homem para moldar e explorar as valências oferecidas pela natureza. Há cumplicidade entre a imaginação e a matéria com o propósito de servir a Humanidade. Acresce ao estudo um glossário rico de vocábulos, ferramenta para a arqueologia industrial, etnografia e folclore.

“Não há Inverno sem lágrimas” de Anabela França Pais é um romance sustentado no drama de um homem que contraiu a doença da sida e que, ao sabê-lo se defronta entre a angústia, o desespero, o desânimo, a desesperança, a discriminação social e o amor que o une à médica, que foi sua aluna, e por quem se apaixonou. A autora que tem estudado esta doença, em colaboração com médicos especialistas, associa a realidade à ficção, adoçando ou relativizando o espectro do mal, pela grandeza de amar. No percurso de dez anos persiste uma cadeia de valores que se entrecruzam entre o factor social, a própria lei, a liberdade condicionada e o irresistível poder da paixão, esta caucionada pelas condicionantes que a sociedade e a doença colocam, que prejudicam e quase inviabilizam a riqueza de amar. Mas, entre as vozes de carinho e estímulo persistem os preconceitos e indecisões do doente. Porém, acaba por triunfar o amor, independentemente, da doença. Um livro de pujante realidade.

 

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