Opinião – Desassossego geral

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Aires Diniz

Fazemos contas à vida, às nossas obrigações e ao que nos virá a acontecer. Mas, tudo nos parece sem solução porque o Governo apropriou-se do Diário da República para escrever à sua maneira mais parcelas a pagar pelo povo.

Tem um discurso que já não nos convence pois já sabemos a ladainha de cor e salteado. Sofremos agora dores que ninguém conhecia, bem diferentes da dor dos amores impedidos ou obstaculizados que foram poetizados por Bernardim Ribeiro assim:

“Indo com não menos dor, / Inda com mais sossego / Os ventos me foram pôr/ depois de Mondego/sobre as serras de Lor” 1

Somos até impedidos de pensar ou racionalizar o que sabemos. Na verdade, só sabemos que há poucos dias regressou de Inglaterra um homem, ex-dirigente do SLB, que sempre teve uma vida faustosa, muita acima das suas possibilidades, que defraudou várias instituições e pessoas, mas que espera ficar livre de cuidados. De facto, acredita que a justiça vai mais uma vez falhar.

Também o BPN foi defraudado por este senhor. E o BCP emprestou os dinheiros dos depositantes a gente de muito pouca confiança, sem capacidade de gestão e, mais grave ainda, que o estourou de uma forma aventureira. Sabemos também que a gestão deste banco por Carlos Ferreira e Armando Vara continuou a gestão de Jardim Gonçalves, não invertendo a marcha para o abismo, que agora resulta em desemprego dos seus já sacrificados empregados. Promete Nuno Amado como solução. Mas, antes também Vítor Constâncio assobiou para o lado.

Estranhamente, surgiu agora uma senhora a dizer que não há dinheiro para os pobres e remediados e a justificação é não há dinheiro porque os pobres o gastaram. Mas, não diz de facto como desapareceu pois não fala das fraudes de alguns novos e velhos ricos.

Só quer que os mais pobres passem fome e que empobreçam sem protestar. Esquece esta senhora das raízes da crise e o seu discurso, bem desconexo, serve apenas para culpar quem acreditou na capacidade de governar dos serventuários dos senhores do capital dos outros.

Chegámos a um momento em que não podemos deixar de fazer contas ao dinheiro que desapareceu. Dizem eles porque o gastámos. Mas como? Se até o depositámos nos bancos, onde outros o foram buscar, dando-lhe sumiço. E acrescentamos “sem deixar rasto” até ver.

Também, esquecendo a boa teologia, um alto dignatário da Igreja diz-nos que não vale a pena protestar pois assim nada se resolve. Nem nos pede para rezarmos pelos pecadores. Esquece-se só da passagem da Bíblia que diz: “Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos”. Mas, todos sabemos, nada faz desaparecer o clamor dos trabalhadores.

1 Bernardim Ribeiro – Trovas de Crisfal, edição revista por Delfim Guimarães, Guimarães &Cª, Lisboa, 1908, p. 27

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