Opinião – Caçada na Inhaca

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João José Pedroso de Lima

O grande acontecimento daquelas férias de 1972 foi a visita do Capitão Santos. Era conhecido de um dos do grupo da caça submarina e, segundo este, tinha vasta experiência de mergulho na “metrópole”.

Apareceu com uma lancha com uns seis metros, dois potentes motores e dois soldados. Equipamento do melhor. Ao contrário de nós, só mergulhava com garrafa.

Era um indivíduo de estatura média, ar de comando, Rollex e anel de brasão.

Havia, a umas milhas da costa da ilha, já fora do banco de coral, um local muito especial, o “rack”. Era a carcaça de um enorme cargueiro, afundado na segunda guerra mundial. Era um local privilegiado para a caça submarina. Na maré baixa, ficava fora de água uma parte do casco ferrugento, com alguns metros de altura.

Quando se mergulhava na zona e não se via peixe, já se sabia, havia tubarão.

Quando chegou, o Capitão organizou um “brieving”, como ele disse, para se estudar uma estratégia. Iriamos até ao “rack” ancorávamos o barco e mergulhávamos aí. Com a lancha facilmente perseguiamos a bóia, se arpoassemos um peixe de grande porte. Com as armas de CO2, o arpão não fica ligado à arma mas a uma bóia que permite seguir o peixe até este ser capturado. A seu conselho, o grupo verificou minuciosamente o equipamento, como numa operação militar: as barbatanas, as armas, as máscaras, os tubos e as facas.

Para o capitão o mesmo, mas agora, tudo de alta qualidade.

Tudo a postos, lá partimos. Chegados ao ponto combinado os soldados lançaram a âncora. Os quatro do grupo, mais o Capitão, saltámos para a água e mergulhámos.

Peixe não se via quase nenhum. Nadámos contornando o “rack”. Deixámos de ver a lancha, tapada pela carcassa. Tinhamos nadado uns oitenta metros contra uma forte corrente, quando Álvaro, o experiente, deu o aviso:

– Alto! Tubarões! Juntem-se.

O que vi a seguir, uns metros abaixo, jamais esquecerei. Deviam ser cinco tubarões grandes e, pelo menos, três mais pequenos. O maior devia ter mais de quatro metros.

O poder que se adivinha naqueles animais, o seu deslizar elegante e todo o passivo de histórias ouvidas, tornavam aqueles momentos hipnotizantes.

Álvaro mandou o grupo ficar à superfície, em círculo, a observar o cardume, armas preparadas. Não era fácil com a corrente que se sentia.

Os tubarões, deslocaram-se num sentido e depois voltaram atrás, praticamente por baixo do grupo.

Mas algo começou a acontecer. O Capitão estava a afastar-se levado pela corrente. Aterrorizado, hirto o Capitão era arrastado executando movimentos mal coordenados dos braços e pernas, incapaz de dominar a corrente.

– Ninguém sai do grupo! Disse Álvaro. Se houver alguma coisa é só com ele.

O Capitão largou a garrafa, largou a arma e fazia perigosos movimentos descoordenados, certamente visíveis pelos tubarões.

A certa altura começou a pedir socorro, afastando-se com a corrente.

Em baixo, os tubarões pareciam não ligar aos acontecimentos, mantendo-se praticamente na mesma posição.

Pensei numa estratégia. Nadar até a um ponto em que fosse visto pelos soldados da lancha e chamá-los para ajudarem o Capitão.

Não me interessei com o insulto de Álvaro quando nadei com o máximo de velocidade, saindo do grupo.

Não demorei muito a ver a lancha e comecei a chamar os soldados com gestos. Em breve, estes perceberam e dirigiram a lancha para mim que lhes apontei o Capitão. Dirigiram-se para lá e puxaram o Capitão para bordo. Depois, um a um içaram os restantes elementos do grupo, terminando comigo. Os tubarões já tinham desaparecido, possivelmente afastados pelo ruído do barco.

O Capitão estava mal, vomitava e demorou algum tempo até articular algumas palavras. Foi uma desculpa safada: – As cãibras lixaram-me.

Ninguém se riu, talvez por compaixão.

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