Opinião – A visitação da senhora

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Francisco Queirós

Frau Merkel visita Portugal no próximo dia 12. A visitação será apenas de horas, mais de médico do que imperatriz, no que ao tempo respeita. Mas não deixa de ser sentida como uma inspecção de soberana a um pobre protectorado. Sob o domínio da troika, a soberania nacional encontra-se condicionada. A Constituição da República permanentemente violada e secundarizada face a um pacto de agressão externa que, em verdade se diga, foi deprecado por forças políticas internas, as que vulgarmente são designadas como do “arco do poder”. Esse arco sem triunfo e sem glória.

Frau Merkel vem aí. De Berlim a Lisboa são umas horitas de viagem. Na visitação da soberana haverá reuniões e encontros com a nobreza autóctone. Far-se-ão balanços sobre o sucesso da aplicação do memorando, pacto de gerência em vigor.

A história de um país de muitos séculos de identidade está pejada de mandos e desmandos das grandes potências externas. A mais velha aliada, desde Windsor, foi também a mais velha soberana. Todo o nosso século XIX é exemplo disso e entre as maiores figuras da nossa história encontramos quem, como Gomes Freire de Andrade, tenha feito frente ao imperialismo inglês, pagando com a própria vida, dependurado na forca às ordens de Beresford, no Forte de São Julião da Barra a 18 de Outubro de 1917, para exemplo de um povo inteiro. Depois das ousadias coloniais de um império de segunda, rabiscadas a cor de rosa num mapa de quem, após a Conferência de Berlim, também queria comer à mesa da partilha da África, os ingleses de novo puxaram as orelhas ao Zé Povinho e em modo de Ultimato ameaçaram com o navio “Enchantress”, aportado em Vigo, mesmo à mão de pôr uma naçãozita na ordem, ordem imperial britânica, entenda-se.

No concerto e desconcerto dos interesses políticos e económicos das grandes potências capitalistas europeias e mundiais, os países periféricos foram sendo “colonizados”. No início do século XXI, a União Europeia assume um projecto estratégico de domínio na pretensão de edificação de um “super-Estado” imperialista, com relações de domínio colonial, à custa da própria soberania, das condições de vida e do direito ao desenvolvimento dos seus próprios povos e da democracia dos mais periféricos dos estados membros.

A senhora Merkel não é a rainha Vitória, mas é quase como se fosse. Representa quase o mesmo. E é assim que o povo português a vê hoje. À mulher de César não basta ser séria, precisa de parecê-lo, também. E esta parece mesmo mulher de César. A esta “kaiserina” não falta nada. É a embaixatriz da Europa dos Mercados, dos grandes senhores da banca-casino.

Frau Merkel será recebida, com as honras que o seu estatuto lhe confere, por uma meia-dúzia de fidalgotes locais. Os senhores das paróquias sempre à espreita, ansiosos e prestimosos, expectantes e submissos, atentos e cuidadosos serviçais da visitação imperial.

Outro pode e deve ser o nosso destino colectivo!

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