Opinião – A norma e o desenrasca

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Maria Manuel Leitão Marques

Ontem em Bruxelas reparei que o condutor do elétrico, apesar da porta estar fechada, esperou por um passageiro que corria apressado do outro lado rua. Voltou a abri-la e deixou-o entrar. Estranhei a deferência porque aqui nada sai da norma, e a norma não é dada a estas gentilezas. Depois, reparei que o condutor não era de origem belga. Aparentemente, seria imigrante do norte de África ou do sul da Europa.

Seguir uma norma com rigor, um padrão de comportamento, é saudável. Permite que a profissão seja exercida com competência média sejam quais forem as qualidades pessoais de quem a exerce. Torna previsível o serviço para quem dele usufrui. Evita o atraso, o erro e a repetição.

Vivendo provisoriamente num país cheio de normas, sinto-lhe as vantagens, mas também as desvantagens. Aqui ninguém “desenrasca” o que quer que seja que não esteja na sua norma de trabalho. No outro dia levei um telemóvel que me emprestaram a três lojas de telefones para me ensinarem a bloqueá-lo. Em todas ouvi mesma resposta. Como não foi ali adquirido, nem um olhar lhe podiam dispensar.

A norma pensa-se, escreve-se, ensina-se, aprende-se e treina-se. Isso faz-se com gestão, trabalho e investimento, em especial, na qualificação das pessoas. Está portanto ao nosso alcance.

Pelo contrário, o desenrasca, tão típico no Sul da Europa, a capacidade de encontrar na hora soluções para situações não previstas, não se ensina e não se aprende. Faz (ou não faz) parte do “código genético”. Se à nossa grande e reconhecida capacidade de desenrascar situações difíceis juntássemos um pouco de normalização para melhorar o rigor e a qualidade usufruiríamos das vantagens dos dois lados. O casamento entre a norma e o desenrasca melhorava mais depressa a nossa produtividade do que a desvalorização do trabalho a que assistimos todos os dias.

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