Opinião – À mulher de César não basta ser

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Marisa Matias

Na segunda-feira que passou, quem ligasse o televisor em França teria pela frente uma cena no mínimo caricata. Os telejornais apresentavam, à vez, declarações de vitória em eleições internas do maior partido da oposição.

Qual telespectadora incauta, a pergunta que se me impôs foi se os estatutos da UMP (Partido de Sarkozy) teriam mudado. Não era o caso, mas as notícias reportavam duas declarações de vitória.

Tratar-se-ia então de um caso de vitória renhida, mas por que razões insistiam ambos na disputa das declarações de vitória? Consultando os jornais percebia-se: o resultado tinha sido apertado – os dados mostravam 98 votos de diferença – e passou-se às acusações de fraude e a adjectivações menos apropriadas para aqui relatar.

François Fillon, o único primeiro-ministro de Sarkozy, e Jean-François Copé, líder em exercício da UMP, foram os protagonistas deste triste episódio. Vieram depois mais detalhes: houve votos que não foram contados em alguns locais, noutros havia mais boletins do que militantes inscritos.

A Comissão Eleitoral do partido viria depois dizer publicamente que os votos de três circunscrições não tinham sido contabilizados. Voltou a estar tudo em aberto, portanto. Reforçou-se assim o imbróglio.

Numa tentativa de resolver o impasse, na quinta-feira, Alain Juppé, o último ministro dos negócios estrangeiros de Sarkozy, veio oferecer-se para presidir a um colégio que se propõe a examinar os resultados das eleições e que irá decidir sobre o verdadeiro vencedor. Juppé declarou-se imparcial, imune a instrumentalizações e colocou a sua oferta na mesa apenas até às 20h desse dia.

Poupando nos detalhes, mantinha-se ainda a dúvida se Copé, a quem foi atribuída a curta vantagem na disputa de Domingo, aceitaria o veredicto de Juppé.

Não tenho particular paciência para episódios de disputa de poder nos termos em que este ocorreu, nem quero maçar ninguém com este triste espectáculo, mas quero partilhar a minha perplexidade. Este episódio aconteceu na Europa, num país democrático, não foi num qualquer “canto do mundo” daqueles a que a Europa gosta de dar lições de democracia.

Ao longo de mais de três anos de mandato no Parlamento europeu, perdi a conta aos pareceres e às resoluções que foram aprovadas nesta casa para pôr outros em ordem, às acusações que foram feitas por muito menos, à arrogância que tantas vezes impede de olhar para dentro. À mulher de César não basta ser, tem de parecer, e numa semana em que “quem manda” passou a integrar a França no grupo dos “putativos” afectados pela crise (sabemos que são todos, mas isso é outra conversa), em que os alarmes soaram, em que o desemprego aumentou, foi este o centro do debate político.

Tão lestos que somos a apontar o dedo aos outros e tão lentos que somos a perceber o que se passa dentro de casa.

Não há nada pior do que a disputa do poder pelo poder. Triste mesmo.

 

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