Opinião – A distribuir o mal pelas aldeias

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Paulo Almeida

É hoje o dia da votação final do Orçamento de Estado para 2013. Todas as previsões de Gaspar falharam até à data e já se anuncia que continuarão a falhar. Nada disso é grave para Pedro Passos Coelho, que considera que o PSD chegará “ao fim do mandato a saber que cumpriu e preparou o futuro”. Até lá irá aguentar as incompreensões das pessoas que têm de pagar mais impostos e das que vão sofrer cortes nos subsídios de doença e desemprego.

Uma vez que não vislumbro qualquer futuro risonho no Orçamento de Estado que vai ser aprovado hoje, sinto que muita gente vai sofrer, o que por definição é inútil e só por doença ou fetiche alguns a podem desejar, para eles próprios ou para os outros. Um dia, talvez, venha a existir um Portugal mais feliz (com as actuais ou com quaisquer outras políticas).

O que verdadeiramente me incomoda e preocupa é ter a consciência que muitos vão cair e sofrer para que aqueles que já hoje são privilegiados possam amanhã, num Portugal risonho, continuar a sê-lo. Ramalho Eanes disse neste último fim-de-semana que não é admissível que se passe fome em Portugal. As crianças que hoje passam fome não concluirão com sucesso os seus estudos e muito provavelmente por falta de meios não hão-de um dia sequer ter filhos. No presente, já sentem o afastamento dos membros da família, pois não vão poder passar o Natal na aldeia junto dos avós. Não há dinheiro para a viagem. O Portugal de sucesso com que alguns sonham não pode ser construído à custa da miséria alheia e da falta de solidariedade entre os seus membros. A fome, com todas as suas implicações, é um retrocesso democrático inaceitável. Podemos transformar um fósforo aceso numa lareira, numa ceia, numa viagem para junto dos que mais amamos, da família. Mas quando o fósforo se apaga, à realidade da fome e do frio junta-se a da morte e a indiferença dos que sempre estiveram demasiado ocupados. Temos de ter tempo para “comprar um fósforo”, para sermos solidários.

O cineasta Luis Galvão Teles já realizou “A Rapariga dos Fósforos”. Em 2006 lançou o filme “Dot.Com”, de que imediatamente me lembrei depois de ouvir PPC a dizer que “há que distribuir o mal pelas aldeias”. Águas Altas, a aldeia do filme, criou um site na internet para atrair turistas e calhou-lhes na rifa terem o mesmo nome de uma empresa espanhola. Por causa do “.com”, a aldeia teve de resistir, tal como em 1580, à “invasão” dos espanhóis que queriam comprar o seu site da internet. É uma comédia que se recomenda e que obviamente decorre num tempo em que o 1º de Dezembro ainda tinha importância suficiente para ser feriado.

Para o bem e para o mal, temos por fim a certeza das palavras de Pedro Passos Coelho que firmemente afirmou estar a agir “de acordo com a nossa consciência e de acordo com aquilo que é a nossa filosofia política para ser justos e progressistas”. Mas como também afirmou não saber “se no fim o reconhecimento será melhor que a incompreensão”, propunha-lhe que colocasse a questão a Vanka Zhukov, ao órfão de 9 anos que trabalhava para um sapateiro e que numa véspera de Natal pediu por escrito ao seu avô para o ir salvar. O envelope que Vanka enfiou no marco de correio tinha escrito no endereço: “Para o avô, na aldeia.”

 

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