Opinião – O “milagre” do “reajustamento externo” do Governo e da “Troika”

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Eugénio Rosa

Numa clara operação de manipulação da opinião pública, o governo e a “troika” têm procurado apresentar como um “êxito” da terapia de choque de austeridade que têm imposto ao país aquilo que designam por “reajustamento externo”, ou seja, a redução significativa do défice da Balança Comercial. Vítor Gaspar, na conferência de imprensa que deu para justificar o aumento da TSU para os trabalhadores e a descida para os patrões que se traduzirá, se for aprovada, por uma transferência de 2.200 milhões € dos bolsos dos trabalhadores para os bolsos dos patrões, até apresentou esse “êxito” como a causa do aumento do desemprego, não compreendendo que isso é, da forma como está a ser feita, mais uma prova do fracasso do reajustamento do que de um êxito. Uma das características deste governo e desta “troika” é a utilização sistemática da mentira para enganar a opinião pública e a incapacidade para analisarem e compreenderem a realidade portuguesa, substituindo o estudo sério por “modelos” em folhas de cálculo “excel” pensando que desta forma resolvem os problemas. Cegos pela ideologia neoliberal, governo e “troika” pensam que a realidade depois se ajusta aos “modelos” mas isso nunca acontece. E então ficam surpreendidos, e exteriorizam-na tornando-se patéticos. Mas o mais grave em tudo isto é que estão a destruir o país e a vida dos portugueses.

Um das faces do “milagre” do “reajustamento externo” é a redução das importações. Segundo o INE, entre 2007 e 2010, as importações portuguesas diminuíram em 2.873 milhões €. No entanto, a redução das importações neste período, foi feita fundamentalmente à custa da diminuição das importações de “máquinas e aparelhos, e material elétrico” que caiu em 2.732 milhões €, e por meio da redução da aquisição no exterior de “metais comuns e suas obras” (ferro fundido, ferro, aço, alumínio, etc.), indispensáveis à produção das empresas, cujas importações diminuíram em 1.300 milhões €. Em 2011, registou-se nova quebra importante na importação de máquinas que, entre 2010 e 2011, passaram de 9.370 milhões € para 7.819 milhões € (-16,6% num ano apenas). Portanto, a redução das importações considerada pela “troika” e pelo governo, e nomeadamente por Vítor Gaspar, como um “milagre” deve-se, não a uma alteração estrutural da economia portuguesa, mas fundamentalmente à queda brutal do investimento das empresas, que está a provocar a degradação do aparelho produtivo nacional. É evidente que, logo que a economia reanime, as importações, e nomeadamente de máquinas e aparelhos assim como de materiais e obras necessárias à produção das empresas, vão disparar até porque quando terminar esta hecatombe que está a atingir a economia e a sociedade portuguesa, a continuar esta política de austeridade violenta, as empresas estarão devastadas e será necessário reconstituir o aparelho produtivo nacional. Mas o governo e “troika”, cegos pela ideologia e interessados em satisfazer os credores ou mentem ou não compreenderam a realidade nacional.

 

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