Opinião – Um Verão do nosso descontentamento

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Francisco Queirós

 

Chegados ao Verão, sobretudo a Agosto, parte do país cochila à sombra ou dorme ao sol. Que o digam os dermatologistas preocupados com os escaldões. No Verão é suposto descansar-se, passear, conhecer novas terras e novas gentes. Visitar museus e monumentos, tomar banhos de mar. Lá fora, para quem pode. Cá dentro, para quem ia podendo. Era assim. Na verdade, para muitos nunca o foi, dificilmente o era para os reformados, pensionistas e os tradicionalmente pobres. Mas a tradição já não é o que era. E aos pobres de longa duração, junta-se um grande exército de pobres recém chegados, de novos pobres e de muitos milhares de “ainda-não-totalmente-pobres-mas-quase”. E assim este Verão faz a diferença. A tradicional “silly season”, época de pasmaceira e de “não acontece nada” com todos a banhos, em 2012 é uma época de “não acontece nada” com milhões em casa, a ver televisão, dando uma escapadelazita à praia dos tesos, a praia fluvial mais próxima, à distância de poucos litros de combustível ou de um bilhete de transporte público. Em Agosto, verifica-se um fenómeno de cascata a que só o pobre de longa duração é imune, esse fica na mesma, sempre em casa. Os outros descem aos rebolões a tal cascata. Quem ia para outros continentes, fica-se por um destino mais próximo. Quem viajava para países vizinhos vai até ao Algarve. Quem ia para o Algarve, e não é de lá, vai para uma praia mais próxima e escolhe o parque de campismo. Outros vão ao rio. E muitos ficam-se pela banheira. Mas com cuidado com os gastos excessivos de água. Afinal, dizem os mandantes que não nos podemos lavar acima das nossas possibilidades…

E é assim. Até a canção que se repetia nas nossas cabecinhas ensolaradas: “eu gosto mas é do verão…” soa a agressão. A troika, o senhor Passos Coelho e os outros outorgantes do pacto com o diabo é que têm culpa. Está calor, mas o sol que nasce não é para todos. Este é o verão do nosso descontentamento. E nem Shakespeare nem Steinbeck têm culpa. Aliás, a praia deles era mais o “inverno do descontentamento”. O problema ou a gravidade do mesmo é que para nós portugueses, pelo menos para os que não são banqueiros, grandes empresários, “bolsistas”(não confundir com “bolseiros”, outro novo sub-tipo de pobres!), para nós portugueses este é um Verão que se sucede a uma Primavera e que antecede um Outono e um Inverno, como sabiamente diria o ministro das Finanças. Mas porventura, todos iguais no nosso descontentamento, na melhor das hipóteses. Ou de descontentamento em descontentamento até… sabe-se lá!

Mas é Verão. O sol aquece-nos o corpo e a água do rio refresca-o, bebe-se uma cervejita, comem-se uns tremoços, sempre é o marisco do Eusébio, e nada de pensar nas contas por pagar. Na luz, na água, no gás, na prestação da casa ou na renda,na revisão do carro, nos livros para a escola dos filhos e em milhares de outras tretas sem importância. Eu gosto mas é do Verão. E viva o Verão!

 

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