Opinião – O Oriente em crónica de férias

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Mário Nunes

Desvanece a tarde. O Sol não é mais que uma bola de ouro, que parece ferver no horizonte entre aglomerados de nuvens negras e escarlates. A sua agonia reflete-se nas montanhas à nossa frente, que beija em gesto de despedida, parecendo na atitude de tristeza que cresce com o desfalecer da luz, soltar gemidos expressos nas sombras que se vão diluindo nas sinuosidades das colinas.

Cai a tarde e com o último fulgor de Sol, que se esvai na lonjura das cristas arredondadas das serras, chegamos à última página da crónica de viagem do livro intitulado “Oriente”, maioritariamente centrado na cidade de Istambul (Constantinopola), que redescobrimos na biblioteca da casa que construímos na Vila do Espinhal, da autoria do escritor espanhol, Vicente Blasco Ibàñez, traduzido em português e impresso no Brasil. Possuímos a 4.ª edição, adquirida em Lisboa, em 1966, por oito escudos.

A curiosidade acicatada pelo título “Oriente” estimulou o nosso “apetite” para o ler. As viagens que realizámos à Turquia motivaram que “devorássemos”, em pouco tempo, as 254 páginas ilustradas. A crónica da viagem vagabundeia pelos lugares visitados pelo autor.

Este, nas descrições “polvilhadas” pela subtileza de alguma ficção sustentada no amplo saber recolhido na leitura de muitas obras sobre história, ideologias, religiões, sociedade, nacionalidades, lendas, economia, geografia, costumes e tradições enraizadas na ancestral cultura dos diversos povos protagonistas do seu trabalho, oferecem ao leitor um mundo maravilhoso, misterioso, tacitamente aceite e debruado na forma atraente dos incontáveis e únicos momentos, partilhas, episódios e observações que o escritor viveu e transporta para o papel.

Leitura entusiasmante que nos permitiu recuar no tempo e relacionar aquilo que vivemos e partilhámos quando estivemos naquele país, vivências únicas que afloraram, na nossa memória, embora o livro tenha sido escrito há setenta anos.

Contudo, permanece verdadeira uma parte significativa do descrito, pois a Europa e o Próximo Oriente confrontam-se, atualmente, com crises e guerras, disputas de religião, de fronteiras e de regimes políticos que envolvem os “pecados de séculos” e as hipocrisias humanitárias de solidariedade, democracia, paz e falso palavreado de equidade entre os homens.

Verificamos que as diferenças persistem ou aumentaram e se conjugam no ódio, vingança, ambição, poder, festança, destruição patrimonial e ambiental e desprezo pela vida. Um livro que nos guia por caminhos, transportes, mares, lagos, cidades, costumes e lugares, onde os prodígios naturais se enquadram na riqueza, no fausto, na miséria, na esperteza comercial e na naturalidade da morte seja em que condições acontecer.

Ao longo das páginas soltam-se rosários de acontecimentos, quase incríveis mas reais, que abonam as diferenças abismais existentes nos hábitos e poderes de senhores e habitantes de Istambul e de cidades por onde o escritor passou.

A renovação das gerações não impediu a manutenção dos valores do passado, onde têm influência as religiões, há obediência ancestral e se definem os destinos de muitas pessoas.

Um universo incontrolável de vínculos e costumes a que o autor dá mais vida, mostrando nas “carícias” e elegância da prosa e nos bosquejos históricos e tradicionais, o esplendor e ocaso de uma viagem inesquecível.

Não faltam o trinar do rouxinol, os encantos das Mil e Uma Noites, o Ramadão, Jesus e Maomet, o harém e os eunucos. A curiosidade de um europeu na naturalidade do asiático.

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