Opinião – Tonel das Danaides

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Salvador Massano Cardoso

Por esta altura, época de exames, recordo ter assumido uma nova responsabilidade acompanhada de angústia incontrolável, própria do momento de definição do futuro de um adolescente. Revisões e mais revisões das matérias.

A geografia não me preocupava e a história muito menos. Considerava ambas como formas de viajar, no tempo e no espaço. Nesses momentos surgiram algumas perguntas, por que razões alguns países não tinham fronteiras estáveis. Que chatice, se fossem como os portugueses, que as tem praticamente inalteráveis há séculos, as coisas seriam mais simples. Ao sobrepor a história de alguns países com os seus territórios, caso da Alemanha, as coisas pareciam-me inexplicáveis. Como é que um povo daqueles só recentemente teve a sua própria limitação geográfica, embora dividida em duas partes?

Pensei, ninguém me vai fazer perguntas sobre isto. Perguntam-me as capitais, quais as principais produções, um ou outro rio mais importante e pouco mais. Mas as perguntas ficaram numa gaveta lá ao fundo tapada com teias da memória da aranha. Agora, um pequeno artigo veio dar-me algumas explicações sobre esse fenómeno, e muitos outros, que nos atormentam.

Diz o entendido, Heinz Wismann, que no princípio do século XIX dois modelos dominavam a Europa, Roma e Atenas. Os franceses optaram por Roma e os Alemães por Atenas. Roma significava a centralidade, o direito romano, a racionalidade e a construção da realidade, que se tornou uma obsessão, definindo a forma de pensar, de ver o mundo e, sobretudo, justificava a ascensão social do herói que tem de encontrar o seu lugar num mundo já constituído.

Para que tudo isto tenha acontecido deverá ter contribuído a limitação muito cedo das suas fronteiras naturais, uma “realidade” estado-nação com fronteiras. Em contrapartida, a Alemanha era uma manta de retalhos de principados, a relembrar as cidades estado gregas e as suas ilhas. Para os alemães os gregos eram o povo da cultura que não tinham verdadeiramente um estado e com os quais se identificavam. Para os alemães a realidade não era uma coisa circunscrita, mas sim “agir ou produzir um efeito”, algo que exerce uma ação. Na literatura alemã verifica-se amiúde que o que interessa é o desenvolvimento da personalidade do indivíduo e não a ascensão social como acontece no romance francês. Dizem que os filósofos só podem pensar em grego e em alemão e não em latim ou francês. Curiosa observação, de origem alemã, claro.

Há uma certa identidade entre a Grécia e a Alemanha. São muito mais parecidas do que parecem. A intransigência alemã face a Atenas é explicada pelo facto de os gregos re-enviarem aos alemães a imagem da sua própria história, não terem tido durante muito tempo um estado territorial. “Os gregos incarnam hoje o que os alemães historicamente foram”. Os alemães saltam sobre os gregos não por causa da dívida astronómica, mas pelo facto de não terem os meios capazes para se salvarem. Para isso é preciso “estado”. Os alemães devem lembrar-se bem do que foram entre 1914 e 1945.

O que é que aconteceu durante a crise económica do segundo decénio do século XX? Inflação terrível, não conseguiam ver o fruto do seu trabalho que esvoaçava durante o dia. Diz o autor que tudo isto foi consequência do conceito da fragilidade do estado que passou a dominar as mentes germânicas, e o resto que aconteceu.

No fundo, a intransigência dos alemães deve-se ao facto de se identificarem desde sempre com os gregos e não quererem rever-se no que está a acontecer. A análise do autor vai mais longe, a Grécia está muito longe de ser um estado. Tudo aponta que os gregos são insensíveis a estas ideias, prezam muito o seu pluralismo. Socorrer os gregos é um verdadeiro tonel das Danaides, não socorrendo é o fim da Europa.

Depois de ler e analisar tão interessante texto fico mais satisfeito por só agora ter conhecido assuntos que há mais de quarenta anos tinha colocado, mas não fico esperançado no futuro. Afinal, certos fenómenos e acontecimentos têm especificidades próprias cujas causas mergulham nas profundezas do tempo e da história.

Vale a pena ler “Grèce-Allemagne – Un conflit mimétique” de Heinz Wismann.

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