Opinião – Poluição estrogénica

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Massano Cardoso

Fala-se muito no défice de natalidade, que está a preocupar muitas nações, entre as quais a nossa, já que de ano para ano nascem menos crianças, que, por sua vez, são geradas em úteros cada vez mais envelhecidos.

Consequências? Muitas, nomeadamente problemas demográficos com implicações a vários níveis. O fenómeno é relativamente novo, começou a dar os primeiros passos há meio século com a descoberta de uma das maiores invenções da humanidade, a “pílula”. A mulher libertou-se, passou a controlar a natalidade separando-a da sexualidade, autonomizou-se, revolucionou o mundo e a vida sofreu grandes e profundas transformações.

Uma substância química pode originar estranhos e complexos fenómenos e, ao mesmo tempo, ter outras implicações, nomeadamente de natureza ambiental. Um dos principais componentes dos contracetivos orais, o etinilestradiol (EE2), é lançado nos esgotos através da urina. Sabendo que mais de cem milhões de mulheres tomam estes compostos, é fácil de compreender que alcançam com facilidade rios, estuários e lagos provocando alterações em muitas espécies, eliminando algumas e originando, sobretudo, o estado de “interessexo”.

Não é de hoje a preocupação dos cientistas com estes fenómenos, mas, atendendo ao crescente número de mulheres que usam a pílula e à insuficiência das estações de tratamento na eliminação destes produtos, tudo leva a crer que estejamos a caminhar para mais um desastre ecológico a somar a tantos outros. Neste momento, uma doutoranda, que acabou de realizar o seu trabalho nesta área, detetou resultados preocupantes que irão ser discutidos em breve. Numa das nossas conversas, confessou-me que a minha sugestão de estudar os batráquios nos cursos de água foi muito complicado e que lhe “deu água pelas barbas”. Teve enorme dificuldade em os encontrar, e quando os capturava – um pequeno parêntesis apenas para informar que obteve autorização do ICN para obter amostras de sangue, libertando os animais logo de seguida –, verificava que eram “raquíticos” e quase sempre fêmeas; machos nem vê-los, aparecia por vezes um ou outro.

A natureza anda a levar todos os dias nas “trombas” com uma pílula monstruosa! Perante esta realidade, o Parlamento Europeu agendou para discussão a contaminação ambiental pelos estrogénios e a respetiva correção, levantando de imediato a necessidade da indústria farmacêutica ter de encontrar substitutos, e em doses mais baixas, apesar de já terem sofrido uma forte redução, e serem utilizados meios relativamente sofisticados para reduzir e tratar convenientemente nas estações de águas residuais estas substâncias. Não é que seja difícil, mas é dispendioso, calcula-se que só no Reino Unido seria necessário um investimento de 24 mil milhões de euros para livrar a natureza dos efeitos do EE2.

O preço da água está sempre a subir e na fatura está incluído os “resíduos”. Se um dia destes vier a ser aprovado algo no sentido de evitar a poluição estrogénica em curso, então, a fatura aumentará dramaticamente, incluindo, quiçá, uma nova rubrica, “taxa de poluição estrogénica”.

Este planeta é mesmo curioso e os seres humanos não lhe ficam atrás. Inventam, poluem, logo, têm de reinventar, para poluírem em seguida! Ciclos humanos que acabam quase sempre em poluição. Espero que um dia destes a poluição antropogénica não esterilize de vez o planeta, é que não há “procriação medicamente assistida” capaz de tratar um “ventre” desta grandeza…

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