Opinião – Afinal… de que serviu esta vitória!

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É sexta-feira e já sei que tenho um dia de muito trabalho. Logo de manhã encontro a D. Fernanda que me diz: “temos muito que fazer…”. Vim preparado como qualquer médico no dia seguinte a uma greve para compensar o Governo por essa ousadia e ir trabalhar resolvendo todos os problemas que se acumularam dos meus utentes, aliados aos assuntos relacionados e urgentes dos utentes dos colegas de férias.

Esta é a chamada, mas não compensada financeiramente, intersubstituição interpares, médicos que fazem sem lhes pagarem, o trabalho mais urgente (não emergente) que aparece em qualquer serviço de saúde do SNS nas férias e nas folgas dos colegas do Serviço.
Para trás, ficaram semanas de trabalho intenso. Tal culminou na maior greve médica de sempre e como habitualmente a população esteve do nosso lado, o governo não desmentiu os números e o ministro no primeiro dia de greve e na na Casa da Democracia, anunciou que ia negociar. Foi ainda histórica porque pela primeira vez, em tempo de crise um Ministro da Saúde veio à sede da Ordem dos Médicos, reabrir uma negociação que tem agora nova data limite, tempo entendido como suficiente por todos para de uma vez por todas dar aos médicos e à população beneficiada pelo SNS as condições para manter e optimizar a qualidade, a ética e as estatísticas da prática médica. Bom seria que as profissões que connosco trabalham pudessem também aproveitar a nossa luta e obter, sem mais greves, as suas reinvindicações, que se estendem a outras profissões liberais como os Engenheiros que pela sua Ordem, manifestaram a estranheza pelos parcos ordenados (cerca de 500€!…) que lhes querem pagar.
Após esta vitória, que é também ela dos utentes que perceberam que a nossa luta era justa, há que fazer eco do que em minha opinião é importante. Em primeiro lugar, uma grelha salarial adequada às responsabilidades de quem todos os dias toma decisões que se relacionam com a Vida, com a Morte ou “simplesmente” declara que o individuo idoso e com limitações articulares severas, pode conduzir. Em segundo, fazer das carreiras médicas o garante da qualidade, da formação e da avaliação dos médicos que na privada ou no SNS, cuidam da saúde a milhões de pessoas. Em terceiro, cumprir os acordos já assinados que estabelecem as regras da contratação de médicos garantido desse modo uma classificação justa e de acordo com os curricula dos candidatos e não pelo preço/hora. Já os nossos anciões diziam que “o que é barato, sai caro”, diria mesmo caríssimo ou impossível de dar o custo, tratando-se de vidas humanas. Em quarto, ter a noção que o acesso às faculdades de medicina merece uma profunda reflexão, sobre o numerus clausus, sobre os colégios e as escolas que conseguem ter percentagens de acesso acima da média, sobre os actuais cursos de medicina (alguns dos quais não vão de certeza formar médicos, ainda que lhes possam chamar assim). Finalmente, garantir o futuro aos internos das especialidades que dão o seu melhor no dia a dia, que ganham prémios e são elogiados internacionalmente, que pagam do seu bolso e com o seu esforço uma formação de altíssima qualidade, sendo em muitos casos aproveitados por sistemas de saúde de outros Países que os contratam e lhes garantem estabilidade pessoal e familiar. Compromete-se deste modo a qualidade da nossa Medicina, porquanto nos levam os nossos cérebros e com isso hipoteca-se também o futuro do nosso País.
Deixei propositadamente (e porque entendo ser um dever manter este sonho), o Acto Médico para o fim. É imprescindivel para todas as profissões liberais (enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas, etc). Sem ele, toda a panóplia de (Re)cursos, se acha no direito e na legitimidade de ser médico, enfermeiro, farmacêutico…o que lhes apetecer. Basta um ano de certificações. E tem de ser possível manter o sonho e a chama acesa.

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