“O Estado e as autarquias têm que definir as suas prioridades”, segundo António Simões

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O fim dos transportes de doentes não urgentes por parte dos bombeiros tem motivado muitas críticas de quem lidera as várias corporações, pela asfixia financeira que vai provocar. António Simões salienta a diferença de custos entre uma ambulância do INEM e dos bombeiros e reconhece que os contratos existentes têm de ser negociados.

Desde que ficou à frente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Coimbra, qual foi o principal desafio?

A Federação dos Bombeiros do Distrito de Coimbra, é o conjunto das 24 associações e corpos de bombeiros do distrito. São 21 corpos de bombeiros com sustentabilidade no associativismo e no voluntariado e três corpos de bombeiros municipais, dois deles exclusivamente profissionais – Bombeiros Sapadores de Coimbra e os Municipais da Figueira da Foz. O trabalho da federação é, no fundo, congregar as vontades e sinergias do distrito, lutar pela defesa dos direitos das associações e dos bombeiros em geral, dignificar a sua actividade e sobretudo trabalhar para que estas associações possam ter a sua própria sustentabilidade no sentido de garantir socorro de proximidade aos cidadãos do distrito. Os bombeiros são responsáveis por mais de 90 por cento do socorro no distrito, temos apenas uma franja na cidade de Coimbra que é feita pelo INEM, no que diz respeito ao serviço pré-hospitalar, e depois tudo o resto é assegurado pelos bombeiros. Podemos dizer que tudo o que sai fora do comum na vida do cidadão passa, naturalmente, pelas associações de bombeiros. É, por isso, muito aliciante representar todas estas pessoas e trabalhar para salvaguardar os seus interesses.

Das 24 associações, 22 são constituídas por voluntários. Qual é a situação – financeira e em termos de pessoal – em que se encontram?

Todas elas, embora em número muito restrito, têm alguns profissionais que garantem essencialmente uma primeira intervenção. No entanto, importa referir que o distrito de Coimbra é, porventura, um dos distritos do país com mais capacidade de mobilização de recursos humanos em termos de voluntariado. Temos, de fato, uma grande capacidade de mobilização em qualquer época do ano, e facilmente, colocamos em incêndios florestais ou acidentes graves, e num curto espaço de tempo, um número significativo de bombeiros. Isto é naturalmente fruto do trabalho exaustivo que cada uma das associações desenvolve no dia a dia. Se bem que hoje, há dificuldades que não se colocavam num passado recente. Isto é, apesar de termos ainda uma grande adesão dos jovens aos bombeiros, hoje a profissão que cada um de nós exerce tem aspetos diversos e outras obrigações que não tinha há uns anos. Muitos dos bombeiros voluntários eram funcionários das autarquias, com vínculos laborais definitivos. Antes, as empresas empregadoras tinham uma dinâmica essencialmente local, eram da terra e dispensavam os funcionários por dedicação e amor ao seu concelho. Hoje, isso está a cair em desuso. Há uma grande mudança de paradigma, mesmo no que são as relações e contratos laborais de cada um dos cidadãos que lhes deixam cada vez menos tempo para atividades voluntárias no período normal de trabalho. Esta é efetivamente uma dificuldade e um enorme constrangimento, apesar disso, é preciso termos todos consciência de que boa parte do trabalho que é prestado sobretudo durante o período noturno e aos fins de semana é desenvolvido por elementos de uma forma completamente voluntária. Os cidadãos em geral devem saber que, por exemplo durante a noite, os bombeiros ficam nos seus quartéis, organizados em escalas de serviço, e de manhã cada um vai para o seu próprio emprego.

A sustentabilidade económica das associações pode ser posta em causa com o fim do transporte de doentes não urgentes?

Pode efetivamente ser posta em causa se não tivermos o devido cuidado. Ao longo dos últimos 10/15 anos o Ministério da Saúde foi sucessivamente solicitando aos bombeiros um conjunto de serviços de transporte de doentes para as mais diversas consultas e especialidades, a que estes tiveram de responder. Saliente-se, que na maior parte dos municípios, sobretudo do interior, não há outra instituição que o faça. Os bombeiros, apesar das dificuldades e com muitos dos nossos dirigentes a avalizarem empréstimos, viram-se obrigados a apetrechar-se, quer em recursos humanos – que também apoiam nas situações de emergência – quer em equipamentos, sobretudo ambulâncias e de um momento para o outro, o mesmo Estado, do mesmo país, que durante 15 anos se serviu das Associações de Bombeiros quando delas precisou, corta-lhe boa parte desse serviço e da receita consequente. De um momento para o outro as associações viram-se confrontadas com os equipamentos, com o pessoal e com menos receitas, sendo que as despesas são praticamente as mesmas, uma vez que as situações de socorro e de emergência não diminuíram. Estão, por isso, neste momento, perante uma quebra de receitas acentuada o que coloca aos dirigentes um significativo desafio: é preciso mudar o paradigma de financiamento das associações de bombeiros. Teremos de nos voltar para o Ministério da Administração Interna, que nos tutela, e para os municípios uma vez que são estes que sabem, em concreto, quais são as necessidades. Embora não haja nenhum modelo, ou até se quisermos qualquer obrigação legal, os bombeiros já hoje dependem muito dos municípios, no entanto, temos de encontrar soluções de financiamento justas, concretas e permanentes sob pena de muito do serviço que é prestado deixar de ser feito pelos bombeiros e passar a ser um dia feito por qualquer outra entidade com custos acrescidos. É preciso não esquecer que, de noite, quando cai uma árvore na estrada são os bombeiros que lá vão, se é preciso ir lavar uma estrada, são os bombeiros que o fazem, etc, etc. Quem é que paga isso? Os bombeiros não debitam a ninguém. É por isso que não me canso de dizer que se não tivermos cuidado a arranjar uma forma de financiamento que sustente as despesas inerentes a esta prestação de socorro, ao pagamento do gasóleo, dos consumíveis, à aquisição de veículos, muitos deles dados por mecenas e empresas que ajudam as suas associações, tantos e tão bons exemplos que temos no país e no distrito, que o digam os municípios que têm corpos de bombeiros exclusivamente municipais a quem nada lhes é dado, perde-se muita dessa solidariedade mas sobretudo perde-se uma grande capacidade de resposta ao nível da prestação de socorro que os bombeiros em Portugal têm dado. O Estado e as autarquias têm que definir as suas prioridades, no sentido de que a população de cada um dos nossos municípios continue a ter um socorro eficaz e que não se perca, principalmente, a motivação daquilo que é um dos valores mais altos da sociedade portuguesa, que é o voluntariado no socorro

A sociedade é parceira dos bombeiros?

Claro que sim. As pessoas percebem bem aquilo que são as associações de bombeiros. Aliás, as associações foram criadas no seio das comunidades e, regra geral, são instituições da sociedade civil muito acarinhadas pelas populações. Todas as pessoas se lembram de bater à porta dos bombeiros e, depois, naturalmente retribuem esse carinho. Não é por acaso que os bombeiros são, segundo todos os estudos de opinião, das instituições com maior credibilidade junto dos cidadãos. Às vezes somos mais acarinhados pelas nossas populações do que pelo próprio Estado. Por vezes temos a percepção que em Lisboa é difícil perceber o que é a interação dos bombeiros com a nossa população e a mais valia que isto representa para o nosso país. Este associativismo, com muito trabalho e dedicação dos nossos dirigentes, que se tornou ao longo de mais de 600 anos o sustentáculo do voluntariado, é um fenómeno importantíssimo no sistema de proteção civil e deve ser cada vez mais incentivado e protegido porque ele encerra, em si mesmo, valores inigualáveis no espaço universal.

Teme que a falta de verbas leve a que alguma corporação acabe?

No distrito de Coimbra não temos nenhuma situação que esteja em rutura iminente. Até porque também não temos muitas associações por cada concelho. As que existem são as necessárias e, de uma forma ou outra, têm de sobreviver. Temos, como já referi, é de encontrar fórmulas alternativas, temos porventura de renegociar alguns acordos. Por exemplo, com o INEM, de quem somos parceiros ativos e incontornáveis, os Bombeiros, apesar de tudo, têm um mau acordo. Uma ambulância do INEM a operar num corpo de bombeiros, custa um terço do que custa uma ambulância sedeada no próprio INEM. Defendo que as associações de bombeiros devem ser ressarcidas exatamente à dimensão do serviço que prestam e se assim for, tenho a certeza que não está em causa – sabendo que umas têm mais dificuldade do que outras – o seu funcionamento. Pelo contrário, se assim não for e a manter-se o actual estado de coisas – com o aumento de tudo o que são custos de funcionamento e a redução das receitas, então algo poderá vir a acontecer, sobretudo naquilo que é a prestação do serviço não urgente. Estou, no entanto, absolutamente certo de que os bombeiros não deixarão nunca de prestar o serviço de socorro que é necessário e devido aos cidadãos

E porque é que isso acontece?

São os acordos que foram sendo celebrados. Por um lado, uma boa parte do trabalho é feito com recurso a voluntários e por outro, os bombeiros, como o país em geral, viveram tempos de algum facilitismo económico e foram-nos celebrando com prejuízo próprio. Duma forma ou de outra sempre conseguimos sobreviver. Se o INEM, o Ministério da Saúde, nos desse o mesmo dinheiro que gasta com cada uma das suas ambulâncias – e essas contas não são difíceis de se fazer – se calhar os bombeiros não tinham tantas dificuldades. É por aí que as coisas têm de passar. Renegociando-se os protocolos. Não com vantagens acrescidas para os bombeiros, mas em pé de igualdade com as restantes instituições.

Pode haver uma rutura com INEM provocada pela renegociação?

Não. Os bombeiros não têm esse espírito, não fazem greves, nem ruturas. Temos que repensar numa lógica construtiva, de diálogo e de boa fé e a Liga dos Bombeiros Portugueses está em conversações com os Ministérios e a Autoridade Nacional de Proteção Civil, para encontrar a melhor forma de financiar as associações. É preciso colocar o acento tónico no lugar certo. Esta não é uma exigência dos bombeiros mas sim da sociedade. Vivemos num tempo em que as pessoas mais nos vão bater à porta. Porventura já alguém se questionou que com os centros de saúde a fecharem à noite, é a porta dos bombeiros que mais vezes sente o bater dos cidadãos em dificuldade?

O Estado tem de olhar para os bombeiros voluntários como associações que, embora não paguem muito daquilo que é a mão-de-obra, têm muitas despesas?

Estou convencido que o Ministério da Administração Interna e Autoridade Nacional de Proteção Civil têm consciência do papel importante dos bombeiros. Mas sobretudo esta parece que tem alguns problemas em assumir a importância destas instituições. Nos últimos anos, e desde que acabou o Serviço Nacional de Bombeiros e estes passaram a ser tutelados pela ANPC, até a palavra “Bombeiros” quase desapareceu do léxico utilizado.Passaram a designar-se oficialmente “combatentes” como se de alguma guerra se tratasse e só com muito empenhamento nosso não somos relegados para planos secundários. Infelizmente quem mais utiliza os nossos serviços, os nossos conhecimentos, as nossas instalações, quem se socorre do sacrifício e do voluntarismo dos nossos dirigentes e dos bombeiros, é quem menos nos considera, tornando-se num paradoxo sem qualquer sentido.A própria legislação publicada nos últimos anos não foi nada facilitadora.

O número de bombeiros do distrito de Coimbra é suficiente?

É suficiente. O distrito de Coimbra é, talvez, o que tem a maior capacidade de mobilização para qualquer ocorrência. É um distrito com uma mancha florestal muito grande, e muito heterogéneo no que ao risco diz respeito, o mar, a serra, os rios, os niveis de tráfego rodoviários e ferroviário, mas estamos preparados e conscientes do nosso papel e das nossas responsabilidades.

E para o verão, estão preparados?

Como já referi, os bombeiros portugueses estão preparados para todos as situações ditas normais, e concretamente para os incêndios florestais, não tenho dúvidas em afirmar que somos dos bombeiros do mundo mais bem preparados. Apesar do estado da nossa floresta e das casas por ela disseminadas, tantas e tantas vezes sem qualquer proteção, é muito raro em Portugal lamentarem-se casas ardidas ou vidas de cidadãos perdidas, como ouvimos e vemos em relação a tantos outros países. No entanto, quando os incêndios se generalizam, nem aqui nem em qualquer outro lado, é possível fazer face a todas as situações. No ano passado tivemos dias de 500 incêndios, ou seja, mais de um incêndio por corpo de bombeiros. Temos todos, enquanto cidadãos, de refletir sobre isto e perceber que em situações de excepção, todos temos responsabilidades e todos somos chamados a colaborar.

A grande maioria dos incêndios têm origem criminosa?

Pessoalmente ainda não partilho dessa ideia de que a maioria dos incêndios tem origem criminosa. Há muitos por descuido. O nosso povo tem muita tradição do uso do fogo na floresta e, muitos são por descuido ou negligência. Há sempre, em qualquer lado, um cidadão ou outro que o faz por dolo. A maior parte são indivíduos socialmente desenquadrados , com vivências de isolamento e de dificuldades várias. Para estes precisávamos de encontrar mecanismos de inserção. A pena de prisão por si só não serve e não resolve. Tem lógica, só porque o tempo da pena de prisão aplicada a um cidadão acabou por exemplo em Julho, libertá-lo, em pleno verão, sem qualquer acompanhamento? Também como professor não tenho dúvidas de que todos ganharíamos com um outro tratamento mais adequado. Os casos não serão assim tantos que não pudessem ser tratados num âmbito mais personalizado, com processos de acompanhamento, educação, correção e inserção.

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One Comment

  1. Anónimo says:

    Mais um Sr. que pensa que o INEM é que deve sustentar os corpos de bombeiros. Por muitos Srs. como este é que os bombeiros não rumam no caminho que deveriam!

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