MIGUEL CASTELO BRANCO: “Seremos capazes de detetar uma doença décadas antes de ela se manifestar clinicamente”

É diretor do Instituto para a Investigação Biomédica sobre Luz e Imagem (IBILI), do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) da Universidade de Coimbra e um dos melhores investigadores do país, na área das neurociências cognitivas. Miguel Castelo Branco nasceu em Cantanhede, há 45 anos

Quando recebeu o prémio Bial, em 2009, disse que “um cérebro diferente não é necessariamente sinónimo de um cérebro doente ou com menores capacidades cognitivas”…

Devemos ser positivos na forma como abordamos a vida. E isto é verdade porque há doenças com forças e fraquezas. Às vezes, a própria deficiência esconde talentos. E isso vê-se no autismo – eles têm uma capacidade de concentração e de entrar em rotinas, talvez por estarem muito vocacionados para comportamentos repetitivos. Por isso, muitas vezes, aquilo que parece uma doença é um estilo cognitivo que nós temos que aprender a respeitar. Todos temos forças e fraquezas, sejam elas clínicas ou não. Recordo-me sempre do caso de um húngaro, que tinha sido campeão olímpico de tiro e na guerra foi-lhe amputada uma mão. Ele acabaria por ser campeão olímpico com a outra mão. Nunca sabemos o que é que a vida tem para nos oferecer. Todos os nossos cérebros são diferentes. Há cérebros doentes e mesmo esses podem dar muito. E é essa perspetiva positiva que devemos ter.

É essa complexidade do cérebro que o fascina?

A mim fascina-me a complexidade. Por outro lado, fascina-me e intriga-me o facto de todos sermos diferentes, mesmo na doença. E reagimos de forma diferente. Estudar o cérebro é um bocadinho como “trabalhar no limite”. Podemos falar na física atómica, na física de partículas, podemos falar da astronomia, ver o infinitamente pequeno, ver aquilo que é infinitamente grande, mas o cérebro é de uma complexidade que eu diria que tende para o infinito. E fascina-me a capacidade que o cérebro tem para se reorganizar. Uma pessoa que é cega usa o córtex visual– a parte do cérebro dedicada à visão – e reorganiza-se. E passa a fazer outra coisa. O cego de nascença consegue usar a parte visual para fazer leitura Braille. Claro que essa plasticidade desaparece com o tempo. Uma criança de cinco, seis anos adapta-se de forma fascinantemente rápida a ferramentas tecnológicas que no nosso tempo apareceram numa idade muito mais posterior. Isso tem a ver com a flexibilidade que cérebro tem. Antes pensava-se que o cérebro ficava pouco plástico a partir da adolescência. Hoje sabemos que o cérebro mantém-se muito plástico até aos 20, 21 anos. Mas um cérebro adulto também tem plasticidade.

Isso significa que…

Significa que se a pessoa tiver uma lesão pode adaptar-se. A má notícia é que depende de muito treino. Isso também se vê no desporto. Lembro-me sempre do futebolista alemão, o Mathaus, que sempre que tinha uma lesão, fosse do tendão de Aquiles, fosse de ligamento cruzado, tinha velocidade de recuperação extraordinária, em três, quatro meses. … O cérebro do adulto é plástico, é capaz de recuperar, mas exige imensa força de vontade e imenso treino. E é isso também que nos torna diferentes. Certas pessoas com AVC conseguem recuperações funcionais incríveis porque têm uma força de vontade, mas também porque estão no sítio certo, com terapeutas que têm conhecimentos nesta área.

Tem 45 anos e já recebeu vários prémios. No ano passado foi condecorado pelo Presidente da República. É sinal de grande reconhecimento…

Sim, mas é também uma grande responsabilidade. Não vou mentir: fico sempre feliz quando recebo um prémio. Mas há um lado perigoso dos prémios… Tenho 45 anos e tenho vontade de fazer mais e melhor. Ao receber alguns desses prémios numa idade relativamente jovem, essa vontade é redobrada. Mas para fazer melhor é preciso ter recursos, é preciso haver investimentos. E nós, no IBILI e no ICNAS, temos projetos que exigem uma grande capacidade de gestão de recursos. E eu acho bem. Cada vez mais a sociedade nos exige que façamos investigação, mas de forma sustentada.

Como é que um cientista encara esse princípio do “utilizador-pagador”?

As pessoas não podem pensar que o dinheiro cai do céu. Tenho passado por experiências de gestão. Tive um projeto da Rede Nacional de Imagiologia Funcional Cerebral (um consórcio nacional de seis universidades), que se traduziu num contrato-programa de um milhão e meio de euros. Tivemos que gerar 800 mil euros de receitas em três anos, o que nos obrigou a um plano agressivo de gestão. As pessoas não podem pensar que o dinheiro é uma prenda caída dos céus. E eu acho bem. Estamos a gerir recursos públicos. Uma pessoa usa recursos e tem que ter projetos que paguem esses recursos. Mas mentalizar as pessoas para isto não é de um dia para o outro.

O ICNAS tem provado que isso é possível…

Sim, e eu estou bastante satisfeito por isso. Agora, também acho que quando se consegue que é possível também se deve apostar nesses sistemas. Não estou a reivindicar isto apenas para esta área. Mas as universidades devem fazer escolhas. Há muito aquela coisa de: “eles conseguem, já não precisamos de apostar”. Acho que nas lógicas de financiamento que temos (que são de co-financimento), deve apostar-se em quem consegue financiamento, em quem mostra resultados.

O primeiro radiofármaco produzido no ICNAS foi um grande resultado…

O ICNAS tem sido uma aposta da universidade e eu espero que isso se mantenha. Não se deve ignorar que o ICNAS inclui um equipamento único no país. Mexe com química, farmácia, medicina, engenharia, matemática, é extraordinariamente multidisciplinar. E tem um parque de imagem médica que é único no país, na Península Ibérica e que na Europa é difícil de encontrar: um sítio onde temos um ciclotrão, onde temos ressonância magnética, PET, e outras técnicas de imagem. Além do IBILI, onde temos outros aparelhos de imagem. Temos aqui um parque de 16 milhões de euros. Diz-se que o ICNAS é das unidades orgânicas mais pequenas da Universidade de Coimbra, mas eu não sei se será das mais complexas.

Porquê?

Porque temos uma farmácia com todas as certificações para produção industrial, temos uma unidade de prestação de serviços de saúde para diganóstico avançado em várias facetas e depois temos uma unidade que produz investigação. Aquilo que se nos pede é investigação e, neste campo, o ICNAS depende ainda muito dos recursos humanos de outras unidades orgânicas. Em contrapartida, tem muito para oferecer, desde a parte molecular da neuroquímica até às ciências cognitivas com impacto nas ciências humanas.

O último projeto do ICNAS, conhecido publicamente, é a produção de uma molécula (PIB) para a deteção precoce da doença de Alzheimer…

O PIB é um marcador que assinala uma proteína que se deposita de forma anómala no cérebro e que tende a acumular-se com o envelhecimento. Também se acumula no envelhecimento normal, só que na doença de Alzheimer tem um padrão de acumulação muito particular porque se concentra muito em certas zonas do cérebro, sobretudo aquelas que estão relacionadas com a visão e com a memória. Sabemos que na antecâmara na doença de Alzheimer, as pessoas perdem a memória e desorientam-se, perdem-se. E é curioso que na doença Alzheimer, uma das zonas do cérebro onde há mais acumulação desta substância (a amilóide), é exatamente na parte do cérebro relacionada com a orientação, a navegação. Isto só é possível sintetizar aqui em Coimbra, onde temos o ciclotrão e toda a área de radioquímica. Qual é o grande desafio da doença de Alzheimer e da maior parte das doenças neurodegenerativas? É que agora sabemos que tudo começa décadas antes de a doença se manifestar clinicamente. Estamos numa era em que começamos a perceber o que se passa muito antes da doença aparecer. As pessoas podem perguntar: “mas o que é que isso nos interessa se ainda não temos tratamento?” Interessa por uma razão: porque apanhamos a doença numa fase em que os neurónios ainda não morreram. E nós para tratarmos precisamos de ter marcadores precoces da doença.

Dessa forma, poderão ser testados novos tratamentos, numa fase mais precoce da doença?

A grande frustração nestas doenças é que os tratamentos têm sido aplicados em fases muito tardias da doença. Aliás, o PIB e a ressonância magnética mostram que na doença de Alzheimer há uma enorme atrofia cerebral e uma grande acumulação da amilóide na altura do diagnóstico. Mesmo a doença de Parkinson: os primeiros sintomas aparecem quando quase metade dos neurónios de uma determinada região do cérebro (que é a substância nigra), morreram. Por isso, não interessa tratar tão tarde. Os resultados, em todas estas doenças neurodegenerativas, têm sido um bocadinho desanimadores. Com a introdução destes novos marcadores precoces de doença, abrem-se as portas para se conseguir testar tratamentos muito mais cedo.

Que outras moléculas poderão detetar doenças?

No caso da doença de Parkinson conseguimos, com o PET ou outras técnicas de medicina nuclear, quantificar por exemplo a quantidade de transportadores de dopamina (a molécula envolvida na doença) ou de receptores desta molécula. No futuro, se calhar, vão ganhar maior importância outras moléculas que são mais específicas. Por exemplo, estou a pensar no cancro da mama: há moléculas que nos vão permitir dizer se um tumor tem recetores de hormonas ou não. Portanto, podemos ir a muito mais detalhe e entrar na medicina centrada na pessoa. A grande vantagem das técnicas que temos aqui no ICNAS, é essa noção que cada pessoa é um caso. Tiramos uma fotografia a três dimensões de uma pessoa. Não dizemos apenas que tem a doença de Alzheimer. Não: dizemos que tem o marcador A, B ou C, que tem esta história cognitiva. Portanto, cada caso é um caso. E estas técnicas permitem-nos até perceber qual é o tratamento melhor para esta pessoa, qual a progressão que ela vai ter. A grande vantagem dos estudos que nós efetuamos é essa: a de tratar a pessoa como “aquela pessoa”.

Foi esse contacto com as pessoas que o fez escolher Medicina?

Eu gostava da área da psicologia e das neurociências sem saber que isso alguma vez viesse a estar relacionado com a minha atividade profissional. Na altura de entrar para a faculdade, hesitei muito entre a matemática e a medicina, mas depois pensei que a medicina me traria um lado humano que não teria tanto se fosse para matemática. Gosto muito do contacto com as pessoas.

Esse contanto com dos doentes mantém-se?

Mantém-se. Tenho muito contacto com doentes por causa dos projetos científicos. Não é um contacto para diagnóstico, embora muito da atividade na investigação acabe por ter impacto no diagnóstico. Temos projetos com certas doenças que até têm um impacto social grande, como ao autismo, a síndrome de Williams, doenças que levam a problemas de integração social. Portanto, tenho tido um contacto bastante intenso com famílias. Isso também acontece nas doenças ligadas ao envelhecimento, como Parkinson e Alzheimer, porque o enquadramento das famílias não é apenas explicar o diagnóstico: é explicar, também, a parte psicológica.

Tomou posse, há poucos meses, como um dos 20 membros do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, órgão formado pelo Governo para contribuir para a definição de políticas e estratégias nacionais nessa área…

Sim, já fui a várias reuniões. É um órgão meramente consultivo: fazemos estudos e fazemos uma análise em determinadas áreas em que o Governo investe. Fazemos uma análise do retorno científico, do retorno económico, do tipo de investimento. Tal como há pouco – quando disse que a Universidade de Coimbra tem que decidir quanto é que deve investir no ICNAS e o ICNAS tem que saber responder, gerando receitas -, na Fundação para a Ciência e a Tecnologia passa-se basicamente o mesmo. Fazemos uma análise do retorno, do tipo de retorno que há, do tipo de retorno para a imagem do país. Há investimentos que o Estado faz que são substantivos, mas se o Estado não o fizer, significa extinguir uma área científica e tecnológica no país. Portanto, é essa a nossa responsabilidade, que não é direta porque somos apenas consultores, mas é um instrumento importante para informar estratégias de ciência e tecnologia.

Daqui a 40 anos, o que gostaria de ter descoberto?

(sorri) Tenho muita curiosidade. Há um lado utilitário da vida – há recompensas que me ajudam a explicar porque é que eu quis ser médico, a recompensa de ser útil. Mas há outra coisa, que é a curiosidade. Tenho muitas perguntas científicas, algumas muito específicas. Por exemplo, no caso do autismo gostava de perceber porque é que existem autistas que são professores universitários e outros cuja cognição é insuficiente sequer para serem autónomos. É um mistério. Ou como é que nós aprendemos a ver? Daqui a 40 anos, gostava de continuar a ser curioso, porque não sei se já serei muito útil. Gostava de ter algumas destas perguntas respondidas, gostava de ter contribuído em projetos na área do neurodesenvolvimento e do envelhecimento e de ter contribuído para a qualidade de vida das pessoas.

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