“É uma honra estar nesta linhagem dos artistas distinguidos em Coimbra”

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Foto Gonçalo Manuel Martins

Quem nunca ouviu António Pinho Vargas interpretar, ao piano, “Que amor não me engana”, de José Afonso, deve fazê-lo. Assim, fica muito mais “fácil” a leitura da entrevista que o músico, compositor e investigador deu ao DIÁRIO AS BEIRAS na véspera de receber o Prémio Universidade de Coimbra.

O Prémio José Afonso e o Prémio Universidade de Coimbra, que acabou de receber. O que é que estes dois prémios significam para António Pinho Vargas?

Significam bastante. E significam coisas diferentes. O Prémio José Afonso foi atribuído ao disco “Solo II”, que fez parte de um projeto que já tinha alguns anos, mas que só concretizei em 2008/2009. Era minha intenção tocar toda a minha música de jazz, mas acabei por só gravar 36 das 50 músicas que tinha composto, boa parte em versões de piano solo. Era para ser só um disco, mas a verdade é que gravei três horas de música e acabaram por sair dois CD’s duplos. No segundo CD – “Solo II” – tenho uma versão que fiz da música do José Afonso “Que amor não me engana”. E já havia no “Solo I” uma música minha, de 1987, que se chama “Vilas morenas”, que, naturalmente, seria dedicada ao José Afonso. Mas, entretanto, o José Afonso morreu. No disco ficou o “Vilas morenas”, toda a gente percebe o que significa, mas a dedicatória passou a ser JAS [José Afonso dos Santos], mais discreta, porque eu não queria que parecesse um aproveitamento da minha parte.

José Afonso já tinha, portanto, cruzado a sua vida e a sua obra em vários momentos?

Sem dúvida. Portanto, um prémio que traz consigo o nome de José Afonso traz consigo uma série de memória e relações com o passado, até com o momento em que eu me interesso por um certo tipo de ação política, que antes do 25 de Abril era quase inevitável no meio estudantil. eu estive três meses em Direito, em Lisboa, em 1971, mas mudei para História, para o Porto, curso que acabei já era músico como atividade principal, em 1983, ano em que saiu o meu primeiro disco, “Outros lugares”. Tudo isto remete para essa fase, essas memórias, e, evidentemente, tem um enorme significado para mim ter um prémio com o nome do José Afonso. Que é uma extraordinária pessoa, além de ser um músico extraordinário, dotado de talento e criatividade fora do comum, mesmo na área específica em que ele se movia, um determinado tipo de canção que vinha do fado de Coimbra e depois evoluiu para outras formas e que nós todos admiramos sempre, imenso. Lembro-me muito bem de ouvir discos dele antes do 25 de Abril, nomeadamente “Cantigas do Maio”…

Onde encontrou influência?

Quando comecei a compor, anos mais tarde, em 1975/76 – sendo certo que todos queríamos tocar jazz e lá estavam os standards, temas do Miles Davis, Coltrane, Bill Evans, Chick Corea – veio ao de cima alguma coisa que terá sido a minha diferença. O meu primeiro disco tem uma música que se chama “Alentejo, Alentejo”, tem outra que se chama “Cantiga para amigos”. A minha ligação, sobretudo por via do Keith Jarrett e dos músicos noruegueses, à corrente da música ligada à editora FEM, com muitos músicos europeus, na verdade corresponde mais à minha apetência criativa, não propriamente como pianista, porque os pianistas de jazz admiro são todos muito bons. E eu sei que tenho pouco a ver com aquilo, a minha cultura, a minha formação, até a minha ecologia, o sítio onde eu vivo, não ia por ali. Portanto, enquanto compositor, surgiu essa vertente que me faz, agora, sentir muito contente, quando me é atribuído o prémio José Afonso, eu fico muito contente.

É, visivelmente, um contentamento feito de muita admiração?

Porque é um nome que vale muito. E vale, para além do mais, porque José Afonso foi uma pessoa que sofreu bastante em termos de disputas políticas, que, na altura, eram de uma extrema violência. Eu pude rever o documentário do Joaquim Vieira e fiquei muito impressionado com aquele episódio passado na sala Mutualité, em Paris, com uns tipos de extrema esquerda a dizerem “estás bem, mas estás em Portugal, gravas lá discos”. E há um momento em que José Afonso dá uma resposta extraordinária: “Vocês esperam que os cantores façam a revolução, enquanto vocês estão sentados no café, talvez no café du Luxembourg!”. E isto continuou, depois, em Lisboa, por exemplo com a letra da música “A morte saiu à rua”, criticaram-no porque em vez de “o pintor morreu”, devia ter sido “o pintor foi morto”… Ora, não há paciência para as coisas que se passaram naquela altura. E o José Afonso aguentou muito. Depois do 25 de Abril, com as diversas lutas pelo poder, continuou a sofrer, continuaram a colar-lhe rótulos que na verdade não lhe pertenciam. E, também por isso, é uma pessoa que eu admiro, artisticamente e pessoalmente.

E o Prémio Universidade de Coimbra?

É um prémio muito importante. Também porque eu sei quem foram os artistas que o receberam antes de mim: Luís Miguel Cintra, Julião Sarmento e Pedro Costa. Conheço-os aos três, especialmente bem ao Pedro Costa. E por isso é, para mim, uma honra estar nesta linhagem. Por outro lado, em termos pessoais, este prémio já me dá a sensação de qualquer coisa que eu devo agradecer. Porque, repare, dar um prémio é um ato de generosidade por parte de quem o dá. Eu só posso responder da mesma forma. Devo agradecer este prémio, porque ele representa generosidade, por um lado, e reconhecimento de um trabalho feito ao longo de muito tempo, por outro lado. É um grande e sincero contentamento receber, nesta altura, estes prémios. Sobretudo, porque correspondem a uma fase da minha vida que, de uma certa maneira não terminou, porque eu continuo a fazer concertos quando me convidam. Gosto muito de tocar as minhas músicas…

Mas esteve um grande período sem tocar?

Exatamente entre 2001 e 2008 – estive pouco tempo depois em Coimbra, no TAGV, em 2010, a tocar “Solo I e II”, a 1 de março, Dia da Universidade –, e não toquei durante todo este período porque tinha cada vez mais trabalho como compositor de música erudita. Eu fui para a Holanda desenvolver-me nesse aspeto e, mesmo no meu período de jazz, secretamente, não era público, só os meus amigos sabiam, eu estava a estudar música do século XX, a tentar compreendê-la com muito interesse. Os anos 1960 e 70 em Portugal e no resto da Europa, em França, nos cruzamentos, foram anos muito intensos. Na altura, os músicos do free jazz e do jazz e da música contemporânea discutiam juntos. Mas esse momento acabou a partir de 1980, cada um regressou ao seu espaço próprio, as músicas separaram-se, embora no meio tenham surgido novas expressões musicais, que hoje passam, por exemplo, pela improvisação “assistida” por um conjunto de meios que não existiam. Há, de facto, uma grande criatividade. Mas, os núcleos duros do que é chamado música contemporânea e do que é chamado jazz foram separados nessa altura.

Falou de grande criatividade. A que o José Afonso pôs na música nova que cantou. Mas também a que António Pinho Vargas trouxe, logo em 1983, com “Outros lugares”, e em relação à qual houve uma adesão muito forte?

Surpreendentemente forte. Tão forte, que me surpreendeu a mim também. Uns anos mais tarde, quando recebi o terceiro Sete de Ouro – porque estes dois prémios, José Afonso e Universidade de Coimbra, são os dois primeiros que, para além do seu caráter honorífico supremo, envolvem um valor pecuniário, quando até aqui foram sempre simbólicos, umas estatuetas e tal –, pelo melhor disco de música instrumental do ano apercebi-me disso mesmo. Já no primeiro disco tinha recebido o Prémio Revelação do Ano da RDP, quando Saramago ganhou o prémio para o Melhor Romance, com “Memorial do Convento”, e estivemos juntos, porque os prémios foram atribuídos no mesmo sítio…

Duas obras – o disco “Outros lugares” e o livro “Memorial do convento” – que marcam aquele momento português?

Marcam, sem dúvida, um determinado momento português. É verdade. E eu ia dizer que o João Gobern, que era, na altura, diretor do Sete, um dos jornalistas ligados à música pop, jazz, disse a propósito do que se tinha passado em 1983/85 e, depois, continuado em 87, com o meu terceiro disco [“As folhas novas mudam de cor”], disse “para nós” – nós, os especialistas na matéria, os tipos da rádio, das editoras –, “o sucesso do António Pinho Vargas não tem explicação”. Aquilo contrariava tudo.

A sua música contrariava, de facto, todos os cânones?

Desse ponto de vista, sim. Porque, de repente, uma música sem letra, sem cantor, sem meninas a dançar no palco, sem nada, bate e bate forte nas pessoas. Por isso, quando eu gravo os discos “Solo I e II” e regresso aos concertos, em 2008/2009, fico muito comovido, porque vejo gente, muita gente que gosta da minha música.

Aquela magia regressa nesses concertos?

Regressa. E no fim, a fila das pessoas inclui quem já tinha estado e se lembrava do que se tinha passado há 25 ou há 30 anos. E inclui filhos dessas pessoas, que nasceram e cresceram a ouvir a minha música por causa dos pais, que tinham em casa os velhos LP’s. De facto, eu fiquei impressionado, porque em Portugal toda a gente diz que é tudo tão rápido, que não há memória. Mas essa é, muitas vezes, mais uma ideia feita que circula nos meios culturais e jornalísticos, do que propriamente uma realidade. Na verdade, eu verifiquei outra coisa. Verifiquei que as pessoas não esqueceram. Houve gente que me disse coisas no fim dos concertos, relativamente a esses dois discos, que eu jamais esquecerei. Uma das quais foi uma senhora que me disse: “eu esperei 30 anos por este momento”, o momento em que eu estive, sozinho, a fazer um concerto em cima do palco.

E isso é quase tão gratificante como os prémios?

Exatamente. Porque tem valor humano e isso fica connosco. E todos nós, que estamos neste tipo de vida, sabemos o sucesso não tem receitas. Ao contrário do que pensam os tipos que trabalham profissionalmente nestas coisas das receitas, porque esses aplicam a receita anterior.

“É uma honra estar nesta linhagem dos artistas distinguidos em Coimbra”

Evidentemente. E gasta. E sobretudo a música pop e rock, porque o jazz continua a manter a sua criatividade sempre, embora tenha uma zona de um certo tipo de academismo que existe em todas as áreas. Aliás, eu fui criticado por eles, pelos meus colegas dessa corrente, porque eu não era. “O que ele faz não é jazz”, disseram. E eu sei que não é bem jazz, mas se não houvesse jazz não havia a minha música.

O que toca não é bem jazz, mas se não houvesse jazz não havia a sua música e quem o admira sabe exatamente isso?

Esse é um dado, para mim, adquirido. E, parece-me, confirmado, até pela receção dos “solos” de que já falámos. Depois, quando regresso da Holanda, em 1991, e começo a compor, o meu nome dizia alguma coisa às pessoas, mas isso não era garantia de nada, porque aquilo era outro campo, eram outras pessoas, outros decisores culturais…

Era já um outro país o que encontrou em 1991?

Foi um outro país que encontrei, sobretudo na maneira como as pessoas se vestiam [riso aberto]. Repare, quando eu regresso a Portugal, já tinham passado cinco anos depois da primeira vez que Cavaco Silva, atual Presidente da República, foi primeiro-ministro. E isso marcou uma diferença, porque Portugal, de repente, julgou que tinha enriquecido. E, portanto, houve assim emergência de uma espécie de novo-riquismo, que naquele caso era riquismo mesmo, porque as roupas eram caras. E verifiquei que os sítios que eu frequentava antes, eram frequentados pelas mesmas pessoas, só que elas estavam vestidas de outro modo.

Está aqui a origem da crise que hoje vivemos?

Está aqui a origem da crise, não tenha dúvida. É evidente que está. Depois, continuaram os mesmos procedimentos. Enfim, posso testemunhar pessoalmente, como milhares de outros portugueses, que recebi em casa vários cartões de crédito sem os ter pedido. E, por isso, não me venham dizer que nós nos endividamos porque nos apeteceu. Fomos fortemente incentivados a fazê-lo. Portanto, convém não esquecer isso. E alguns discursos políticos hoje tentam passar por cima das responsabilidades de instituições bancárias que só faltava obrigarem-nos a comprar o Mercedes ou frigorífico.

Começou a ser o país que temos?

Nessa altura, começou a ser este país.

E hoje, no campo das artes, da música, o que é que é possível esperar?

Ora bem. Hoje temos este ponto de interrogação enorme chamado crise à frente. Teremos de pensar já em alternativas. O que eu digo aos meus alunos é que têm de se preparar para uma situação muito diferente daquela que a geração anterior teve. Porque o número de encomendas vai diminuir, têm de falar com músicos amigos para terem as suas peças tocadas, aceitarem pedidos dos amigos músicos que querem tocar a música deles. E, nesse sentido, não há que ter ilusões porque, provavelmente, o desinvestimento vai começar por ai. E este é praticamente o único rendimento digno desse nome para os compositores, uma vez que os direitos de autor não existem, as vendas de discos são nulas. Aqui cada um se reclama da sua própria crise, portanto, não é por esse lado que alguém ganha dinheiro. Eu tenho alguns discos das minhas peças, mas, se for à Fnac, não está nenhum à venda, tanto faz ser no Porto como em Lisboa.

Os discos e os livros. Têm exatamente a mesma sorte, a mesma vida efémera nas prateleiras?

Porque, pura e simplesmente, ao fim de três meses, não vende, sai. É uma vida efémera que está cada vez a tornar-se mais rápida. Com efeitos muito negativos, quer em relação aos escritores portugueses quer aos músicos. Porque os lugares nas prateleiras estão a ser ocupados pelos best sellers anglo-americanos traduzidos a eito. E também aqui se verifica um dispositivo de dominação cultural. É esse o nome que eu dou no campo musical, porque não merece outro: é um dispositivo de dominação cultural.

Realidade para a qual tem chamado a atenção?

Em 2008, no Centro Cultural de Belém, estive num colóquio, que eu próprio ajudei a organizar com colegas em músicas de outras áreas, que se chamou “Música portuguesa hoje”. Quer saber que foi a primeira vez que tal festival aconteceu neste país? Não deixa de ter um certo significado. E de então para cá, estamos em 2012, mas a realidade não teve grande alteração. Claro que, nesta história, há algumas pessoas, alguns nomes, como Madalena Perdigão – e o célebre Serviço ACARTE da Fundação Gulbenkian – que marcaram uma diferença fundamental. É, aliás, a dra. Madalena Perdigão que, nos anos 80, cria o Festival Jazz em Agosto, onde eu vou poder tocar ano sim, ano não, porque estava sempre um português.

Numa prática que não teve, mas devia ter tido seguimento?

Se verificar, nos últimos anos e se for comparar a programação do Jazz em Agosto, chegará à conclusão que raramente está um português. Aqui houve um claro retrocesso e não se percebe a razão para tal retrocesso. A não ser pelo facto de, claramente, os portugueses não saberem ou não conseguirem promover e promover as suas coisas, lá fora, como cá dentro. O facto é que, em muitos casos, o programador julga que se torna ele próprio cosmopolita se for buscar músicos lá fora, não compreendendo que, com esse gesto, está a impedir que muito jovens músicos, muito bons, que há em Portugal, tenham a possibilidade de tocar.

 

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