Reacender a esperança

Aires Diniz

Agora que o governo em nome do combate à crise nos pede e exige que deixemos de rir e de chorar, torna-se imperioso lutar contra estas fatalidades pardacentas que nos tornam macambúzios e sem fôlego para competir na economia e, também, na luta pela felicidade pessoal e colectiva e, até, pelo pão-nosso de cada dia.

De facto, há poucos dias um amigo queixava-se da falta de memória colectiva sobre todos os que lutaram pela melhoria das condições de vida e de funcionamento do nosso país, concelho, freguesia, lugar e rua. Mostra esta realidade como deixámos de ter memória do exemplo de quem lutou e venceu porque não desistiu.

Nem sequer queremos recordar que “foi Salazar quem nos recordou, em expressão lapidar, a necessidade de «reacendermos o antigo fogo e levarmos por diante a cruzada corporativa» . Era esta a fórmula mágica com que tinha adormecido os portugueses em 1936 e que voltou a reactivar em 1956 quando pressentiu que podia vir a caminho o acordar de um povo com “Humberto Delgado”.

Recuperada a democracia, os títeres que nos prometem o inferno já e o céu para daqui a pouco, vão-nos submetendo a ditames externos para com a ajuda deles os bancos possam curar os seus males.

Felizmente, os denominados piegas vão construindo a esperança e desmascarando estas patranhas, permitindo assim ter uma visão mais correcta e clara da realidade. E, como sabemos, só conhecendo os dados de um problema podemos resolvê-lo. Com Salazar a “cruzada corporativa” era a fórmula mágica com que pacificava a luta de classes e justificava a censura e a repressão. Agora, o “combate à crise”, que nada identifica nem diagnostica os males da finança é a fórmula macumbeira com que os governos enganam os povos. Mas, com magia feiticeira nunca resolveremos os nossos problemas. Na verdade, vivemos imersos em patranhas de quem nos diz para deixarmos de gozar o Carnaval e de celebrar feriados, que nos mostram momentos de arrancada patriótica e servem para recuperarmos o fogo necessário para vencer a crise.

Para complicar, os governantes, enquanto nos desempregam e nos mandam emigrar, não mostram qualquer ideia válida que nos permita ganhar competitividade. Esquecem até que os feriados são elementos fundamentais para assinalar as vitórias patrióticas com que ultrapassámos os erros governativos, os que nos amesquinharam e menorizaram no contexto das nações. Esquecem que o Carnaval, pelo muito turismo que atrai, é um elemento de animação festiva necessária para a ultrapassagem da crise de emprego e da balança de pagamentos. De facto, este farisaísmo de nada vale quando queremos vender pastéis de nata ou queijo da serra.

De facto, neste andar sem rumo nem esperança de nada valem estes sacrifícios.

Gritemos por isso ao Governo: Pare, escute e olhe! E pense!

É o dever do Povo! E nosso claro!

 

1 – Corporação do Comércio – Relatório e Contas da Direcção, 5º Exercício, Lisboa, 1964, p. 55.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*