O Malamene

Francisco Queirós

Em tempo de troika, os mais velhos e os mais novos são os elos mais fracos. Mais permeáveis às injustiças e à pobreza. Também por isso, mais sujeitos às agressões de todo o tipo, à violência e ao medo. As crianças de hoje conhecem novos bichos-papões, outros homens do saco. Tal como os heróis vão mudando, os vilões modernizam-se. “Os maus são os gregos!” – confessava uma criança ao avô, na mesa do café, enquanto a televisão transmitia imagens de manifestações na Grécia. A criança descobrira pela televisão a origem do mal. Os gregos são selvagens que queimam carros, bárbaros que destroem montras e atiram pedras aos polícias, ousando irritar a Senhora boazinha que governa a Europa e que só pela sua alma de anjo ainda suporta os demónios. O avô explicou à menina quem eram os gregos e o que significava a Grécia para a cultura e civilização europeias. Eu, em silêncio, questionava-me, enquanto bebia café, se muitos outros avós cumpririam essa missão, convencido que muitos, por incultura ou intoxicação, veem os gregos de hoje como sarracenos, os bárbaros destes tempos. A menina escutava com atenção a explicação do avô. E a tarefa da senhora não era fácil… “Mas aquela senhora da Alemanha não gosta deles!”, insistia. “E de nós gosta?” Noutras mesas do café, alguns clientes ouviam atentamente a lição do avô da menina. Apreciava-lhes as reações e era evidente que os esgares, as trocas de olhares e as contrações dos rostos do casal de meia-idade da mesa do fundo eram condenatórios. O avô educava mal a criança – sentenciava aquele silêncio ruidoso. E não se contiveram. “ Já foram isso tudo que o senhor diz. Desculpe! Mas agora viviam acima das suas possibilidades. E estão a destruir a Europa. A Senhora Merkel tem toda a razão, minha menina!” A criança encostou-se ao avô e segredou-lhe qualquer coisa que traduzi por “deixa lá, acredito em ti”. O avô sorriu, deu as boas tardes e saiu de mão dada com a menina que caminhava sorridente.

Dei por mim a rir. Recordava-me de uma velha brincadeira de criança. Uma piada de irmãos. Há muito tempo, em miúdos, interrogávamo-nos, marotos: Quem é esse Malamene que tanto mal faz, para pedirmos a Deus que dele nos livre? “Senhor, livrai-nos do mal, amén!” O Malamene é grego. Será, em breve, se não o for já, português. Somos os Malamenes que se seguem. Para a senhora Merkel e para a grande banca internacional, com a colaboração de alguns agentes locais, há por aí muitos Malamenes. A encarnação do mal. E pior dos males, os Malamenes fazem manifestações e greves e resistem a agressões externas!

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