Muita parra pouca uva

Fernando Serrasqueiro

Realizou-se recentemente mais uma cimeira europeia. Foi a 17.ª após o desencadear da crise financeira e terminou com as declarações do costume, sem resultados que apontem uma saída. Fica-se já à espera da próxima.

O mais palpável em termos concretos para se poder falar de combate ao desemprego foi destinar 82000 M€ de fundos, já existentes, para financiar as PME a criar emprego jovem, cabendo a Portugal cerca 3000.

Quanto à matéria de fundo, que desde o início permanece na ordem do dia, surgiram novas medidas de estabilidade orçamental. A mal qualificada “regra de ouro” foi a novidade anunciada com o apoio de 25 dos 27 estados membros (EM).

Fixa-se a obrigatoriedade dos orçamentos dos EM serem tendencialmente equilibrados, podendo virem a ter um deficit estrutural anual de 0,5% do PIB, a preços de mercado, e no referente à dívida foi fixado um plafond de 60% do PIB, a atingir com amortizações anuais.

A regra, dita de ouro, é muito restrita e o valor fixado pode não ser suficiente para fazer uma política anti cíclica, e a própria caracterização de ciclos económicos de cada país é de difícil medição e exige uma verdadeira união financeira, que atualmente o não é. Falta-lhe uma entidade que oriente as políticas de estabilização macroeconómica e contra cíclicas, emita Eurobonds e simultaneamente fortaleça os poderes do BCE para ser verdadeiramente um banco central emissor de moeda.

Pelo exposto, verifica-se um evidente desequilíbrio entre as iniciativas tímidas de promoção do emprego, inexistência de medidas para alavancar o crescimento e as austeras, deficientes e incompletas medidas de consolidação orçamental.

Portugal, como bom aluno desta corrente, é um bom exemplo do seguidismo fundamentalista sem que resultados positivos surjam no horizonte.

Hoje já estamos, como recentemente Krugman avisava, num estado mais negativo do que na altura da “grande depressão”, nos anos 30.

Mesmo a aplicar o receituário sugerido pelos líderes motores da UE os mercados reagem cada vez pior. Quanto mais remédio mais se agrava a doença. Temos um desemprego que não cessa de subir, uma ausência de crescimento e um endividamento cada vez maior.

Entre o 2.º e o 3.º trimestre de 2011, a dívida pública aumentou em 5670 M€ e, já é superior a 110% do PIB. Aliás, Portugal está hoje no topo dos maiores aumentos da dívida.

Este governo arrisca-se a ter máximos negativos em diferentes índices e irá deixar o país com uma dívida muito mais elevada do que a que recebeu, sem nos dar uma data para o regresso do crescimento.

Os portugueses começam a duvidar. Valerá a pena fazer tantos sacrifícios sem ver a luz ao fundo túnel ou existe outra via?

Para bem de todos, mais cedo que se pensa, o governo irá ter de arrepiar caminho.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*