Evocar São Teotónio, do Mosteiro de Santa Cruz e de Santo Agostinho

Manuel Augusto Rodrigues

A memória de S. Teotónio foi evocada em Coimbra, Viseu e Viana do Castelo na passagem dos 850 anos da sua morte. Um dos eventos evocativos foi o Congresso Histórico-teológico no Colégio de S. Teotónio em boa hora programado pelo Instituto Superior de Estudos Teológicos.

Com um solene pontifical presidido pelo bispo de Coimbra terminaram no domingo as celebrações centenárias daquela insigne personalidade.

D. Teotónio nasceu em Ganfei (Valença) em 1082, visitou os Lugares Santos por duas vezes e também foi em peregrinação a Compostela.

Pôde assim conhecer os ideais dos Cónegos Regrantes do Mosteiro de S. Rufo de Avinhão que baseavam o seu ideal de vida em Santo Agostinho e viriam a manter relações estreitas com os Vitorinos de Paris, entre os quais se evidenciaram Hugo e Ricardo de S. Vítor.

Canonizado em 1163, um ano depois da sua morte, tornou-se o primeiro santo português a subir aos altares. Juntamente com Santo Agostinho, S. Teotónio é o segundo padroeiro da diocese de Coimbra. E foi o pensamento do grande bispo de Hipona que inspirou o trabalho desenvolvido em Santa Cruz nas áreas teológica, litúrgica e humanística.

Como outros mosteiros, em particular o de Alcobaça, também Santa Cruz teve o seu “scriptorium” e a sua “livraria”, o que muito contribuiu para a transmissão dos saberes clássico, bíblico e outros pela cópia de grande número de códices e pelo ensino que neles se ministrava.

O Mosteiro de Santa Cruz, que foi criado por D. Afonso Henrique em 1131, tem sido objecto de muitos estudos de autores portugueses e estrangeiros, o que veio a contribuir sobremaneira para conhecermos a vitalidade de tão rico viveiro de homens impregnados de invulgar amor ao saber e à espiritualidade.

Não se pode falar da instituição sem referir a sua livraria acerca da qual Joaquim de Carvalho afirmou: “Em Santa Cruz de Coimbra, famosa casa dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, assistimos à irradiação da influência intelectual do mosteiro”. E acrescenta que Santa Cruz foi a “Alma Mater” dos estudos no centro do país enquanto o Mosteiro cisterciense de Alcobaça, fundado em 1148 pelo nosso primeiro rei, se tornou a biblioteca nacional de Portugal medievo.

As livrarias da Sé e do Mosteiro de Santa Cruz foram levadas na sua quase totalidade, respectivamente, para a Torre do Tombo e para a Biblioteca do Porto, por Alexandre Herculano, depois da deplorável extinção das ordens religiosas em 1834. Coimbra perdia desta feita dois tesouros preciosos criados e acarinhados à sombra da Igreja.

Acrescentamos ainda mais alguns pontos. Na suposta petição dirigida ao Papa, em 1288, para ser criado um Estudo Geral em Portugal figura em primeiro lugar o D. Prior do Mosteiro de Santa Cruz, onde se leccionava a teologia, que passou depois para os conventos dos dominicanos e dos franciscanos, já que esta ciência não figurava nos planos universitários.

A partir de 1539, o D. Prior do Mosteiro era o cancelário da Universidade que era a sua autoridade principal. Esse privilégio perdurou até à extinção das Ordens religiosas em 1834, passando o Reitor a partir de então a desempenhar aquele cargo. Aliás a Universidade manteve relações estreitas com Santa Cruz depois do séc. XVI e da importante reforma de Fr. Brás de Barros, o que deu um impulso decisivo para a renascença que o “Studium Conimbrigense” passou a conhecer.

Foi criado então o Colégio da Sapiência ligado a Santa Cruz e, além deste mosteiro, houve ainda em Coimbra o Colégio da Graça dos Eremitas de Santo Agostinho donde saíram alguns lentes de Teologia da Universidade. Lembramos ainda que pela bula “Gloria Domini”, de 22 de Junho de 1747, o Papa Bento XIV fundou a Academia Litúrgica de Santa Cruz e que o bispo D. Miguel da Anunciação foi cónego regular de Santo Agostinho, o grande teólogo, filósofo e místico medieval que marcou profundamente o pensamento europeu.

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