O Poder do Nada

Massano Cardoso

O preciosismo científico exige que em muitas experiências clínicas se utilize o placebo para avaliar a eficiência de certo produto que se pretende testar. Basicamente o placebo não tem qualquer atividade o que permite avaliar se o que está em causa, nomeadamente um fármaco, atua ou não de forma adequada. Esta prática é consensual desde há muito e faz parte dos paradigmas de investigação. Também é do conhecimento geral que o placebo constitui um dos mais eficazes fármacos ao dispor da humanidade. Por esta razão, os que estão envolvidos em experiências clínicas não podem saber se estão a tomar ou não placebo, porque se soubessem reagiriam como se nada tivesse acontecido, na medida em que um bocado de farinha ou de açúcar não pode ter o efeito esperado. Mas será que é mesmo assim? Será que uma pessoa, que saiba que está a tomar uma coisa inerte, sem efeito terapêutico, pode melhorar? Tudo aponta para que sim. Em determinadas circunstâncias, um indivíduo, que sabe que está a tomar um placebo para a sua maleita, pode melhorar inequivocamente. Estes achados têm sido abordados por especialistas na matéria e começam a por em causa muitas conclusões. Pode acontecer que as pessoas que estejam a usar placebo, versus outras que não tomem nada, e que saibam o que se está a passar, apresentem resultados positivos. Estes factos vão obrigar a reavaliar um dos paradigmas da investigação clínica. Graças à ação terapêutica de um produto inerte surgiu uma nova terminologia, “O Poder do Nada” (The Power of Nothing), título de um interessantíssimo artigo publicado no passado mês de dezembro na prestigiada revista NewYorker.

Estes achados, que vêm a reforçar o papel cada vez mais importante do placebo, conheça-se ou não a sua existência, poderão abrir a porta a muitos dos nossos concidadãos que se veem à nora com a falta de dinheiro e, muitas vezes, impossibilitados de aceder a medicamentos e aos serviços de saúde. Não tarda que algum eminente responsável da saúde venha a propor o uso de placebos, porque, atendendo ao valor comercial da farinha, do leite (que até conseguem com que seja vendido a preço inferior ao custo no produtor) ou de qualquer outro produto similar, ficaria muito mais económico, resolvendo a faturação dos fármacos. Se viesse alguém a dizer, mas isso não atua, não tem qualquer efeito na doença, ainda teriam como argumento, qual quê, atua pois, está devidamente comprovado que os que sabem que estão a tomar placebos também melhoram. Vá, vamos a isso, a partir de agora só se deve tomar placebos, não se pode usar os genéricos, e, como são mais do que económicos, não vão ser comparticipados.

O “Poder do Nada” já está instalado entre nós há muito tempo, não no campo da saúde, mas nos campos da política e da economia, onde ilustres “terapeutas” propõem dia sim dia sim as melhores soluções para este pobre país. Verdadeiros placebos. Nós, os imbecis de uma sociedade, que se pauta mais pela iniquidade do que pela solidariedade (esta ocorre só em casos de “epidemias”), enfiamos por tudo o que é sítio os tratamentos propostos, que não são mais do que placebos, e, apesar de começarmos a conhecer que são placebos, ainda acreditamos no seu efeito! Uma ingenuidade que se vai perpetuar, permitindo que muitos dos “terapeutas” consigam obter lucros muito interessantes, “lucros” na sua aceção mais ampla. Sendo assim, não fico muito admirado pelos achados dos cientistas sobre o papel ativo do placebo nas investigações clínicas.

O cérebro humano é um mistério, sem dúvida, e muito esquisito, também!

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