O essencial e o acessório

DB-Arquivo

Álvaro dos Santos Amaro

Ainda faziam eco as palavras do primeiro-ministro sobre o acordo obtido em sede de concertação social no que respeita ao papel, discreto mas importante, do Presidente da República, quando surgiram as suas declarações, mal explicadas e também mal compreendidas, sobre os seus rendimentos mensais.

Se é certo que interpretadas friamente são claramente desajustadas, não é menos certo que é de uma enorme injustiça muito do que se comentou e escreveu sobre tais declarações ou, pior ainda, das intenções que lhe estão subjacentes por parte do Presidente da República.

Aqui chegados, temos de ser justos. As manifestas preocupações sociais que tem expressado, os vários discursos proferidos onde vinca claramente a distribuição de sacrifícios, os apelos constantes para se pôr fim à iniquidade são apenas alguns exemplos que inequivocamente justificam qualquer “lapso” ou deficiente explicação quanto aos propósitos do Presidente da República.

Como alguém referiu, precisamos que tudo quanto se criou à volta de tal problemática não provoque qualquer tipo de inibição institucional.

É neste contexto que não se pode deixar de registar o enorme sentido de Estado e de claro sentimento de cooperação do primeiro-ministro quando decidiu “distribuir” também pelo Presidente da República os esforços de um acordo com os parceiros sociais. Certamente que não era obrigado a fazê-lo. E quando assim é, mais deve ser valorizada tal atitude.

É de resto este novo estilo de fazer política num momento tão difícil para o país que nos vai trazendo a esperança e até alguma força adicional para mobilizarmos vontades e vencermos tamanha crise.

O Partido Socialista, bem ao seu jeito, vai dando sinais de se pôr de fora da situação. De resto, o seu líder parlamentar já vem dizendo que tal grupo constitui um balneário muito difícil de gerir. Ou seja, estejamos preparados para perceber que dentro deste partido socialista haverá quem jogue bem, quem jogue mal, quem não jogue e, naturalmente, quer joguem quer não, critiquem o treinador. Que difícil missão para António José Seguro!

Lá teremos nós, aqueles e são a larga maioria, que não estamos naquele balneário, a lembrar que o jogo actual, a saber, o crescimento da economia com a consequente diminuição do desemprego, é um jogo difícil e que não tem regras claras, porque a cada passo dependem cada vez mais do que acontece no quadro europeu. E aí, é sabido, “reina” ainda muita indefinição. Valha-nos ao menos que os discursos desse lado, ou seja, do directório europeu, parecem pelo menos conhecer um rumo mais ajustado à realidade. Isto é, mais crescimento económico para assim se combater a austeridade.

É bom que assim seja para novos caminhos serem trilhados, ainda antes das definições eleitorais da França e da Alemanha.

Não se pode perder mais tempo. Lá, como cá, não temos que nos envolver tanto em questões supérfluas ou de jogos de poder.

Os tempos obrigam a isso.

E Portugal conhece em 2012 um enorme desafio para não se perder com o acessório.

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