Nomeações: um primeiro–ministro sem autoridade

José Junqueiro

O conflito de interesses nas Águas de Portugal e na EDP trouxeram as nomeações para a primeira linha do debate político. O governo bem quer dirigir a nossa atenção para outras contas, mas não conseguirá.

Nas Águas de Portugal o 1º ministro, diminuído na sua autoridade, aceitou que um presidente de câmara, “devedor-cliente”, fosse nomeado para “administrador-credor”.

Trata-se da autarquia do Fundão, em desequilíbrio financeiro estrutural. Igualmente grave é o facto de a câmara ter um litígio judicial com as Águas de Portugal, de o ter perdido em tribunal e de estar, agora, em recurso nos tribunais. No mínimo, teremos um “queixoso-perdedor” que poderá passar a “decisor-ganhador”.

Penso que as dívidas das Águas de Portugal estão fora do perímetro de consolidação orçamental, mas em caso de suspeita de insolvência perderá esse estatuto e as contas vão entrar para o défice. Podermos estar a falar de cerca de 3000 milhões. O ministro das finanças nada diz, mas se a colocação de autarcas devedores tiver o objetivo de perdoara as dívidas, então termeos um problema de enorme magnitude.

Na EDP, a nomeação de Eduardo Catroga não seria notícia se não tivesse sido parte na negociação do memorando, da sua calendarização e não possuísse informação privilegiada sobre o processo de privatizações. E se não fosse o cabeça de lista com mais cinco do PSD/CDS. Um deles parece mesmo estar reformado por invalidez, mas que, pelos vistos, não invalida o reassumir de uma vida ativa bem remunerada.

Acresce que todos estes vencimentos vão ser incluídos na fatura da luz que todos nós pagamos, a um preço excessivo que não para de aumentar. Quando isso acontece e um só cidadão ganha sozinho, num ano, tanto como 106 famílias em igual período algo não está bem.

Se o primeiro-ministro tivesse autoridade assumiria o controlo deste desnorte e colocaria um ponto final na ganância em que a maioria se deixou envolver. Mas, pergunto eu, como vai travar estas nomeações? A resposta é simples: com uma decisão assente na sua autoridade. Se isso não acontecer poderemos concluir, com enorme preocupação, que Pedro Passos Coelho é já um primeiro-ministro sem autoridade.

 

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