“Chita”!

Salvador Massano Cardoso

Morreu a Chita. Fiquei muito surpreendido, porque para morrer agora teria de ter muitos anos e que eu saiba os chimpanzés não vivem tanto. Não importa, pode ser um caso de longevidade extrema ou, então, de usurpação de identidade.

Recordo-me dos deliciosos livros aos quadradinhos com o Tarzan, a Chita e a Jane. Devorava as histórias, considerava-as muito atraentes, havia algo de mágico difícil de explicar para uma criança. Quando tive oportunidade de ver o primeiro filme fiquei deslumbrado por ver em movimento o que via no papel.

Esta vivência fantasiosa deverá ter-me marcado imenso e permitiu, agora que penso nisso não tenho dúvidas, respeitar e admirar os chimpanzés. Sempre me senti constrangido como foram e são tratados estes animais, nomeadamente na investigação científica. Recentemente, a descodificação dos genomas humanos e dos chimpanzés veio revelar o elevado grau de semelhança em termos genéticos. Partilhamos cerca de 98,5% dos genes. Se em termos fisio-anatómicos as diferenças são óbvias, em termos comportamentais e cognitivos os chimpanzés também revelam sentimentos, inteligência e têm as suas formas de comunicação.

Tem-se discutido muito se não deveremos inclui-los no género Homo, ficando com três espécies: o Homo troglodytes (chimpanzé comum) o Homo paniscus (chimpanzé pigmeu) e o Homo sapiens (chimpanzé humano).

O Instituto Nacional de Medicina, presidido pelo assumido cristão evangélico Francis Collins, acaba de recomendar a suspensão de financiamento a toda a investigação que envolva estes animais, o que lhe valeu o reconhecimento de cientistas não religiosos. Na base desta decisão está precisamente o tal reconhecimento de identidade com os seres humanos, o que, para o núcleo duro dos cristãos, que negam a alma a qualquer animal não humano, é de realçar.

De facto há em toda esta história dos seres humanos algo mal contado, como o direito a ter “alma”, o que lhes permite provocar “descontinuidade” entre “Nós e os Outros”, quando, na realidade, existe apenas “continuidade” entre todos os seres vivos, como é percetível através da evolução. Outro aspeto, também duvidoso, tem a ver com o direito de suserania relativamente aos “outros” e ao ambiente, baseado, entre nós, ocidentais, precisamente na Bíblia. Estas atitudes ou interpretações poderão ser responsáveis pelas atrocidades cometidas contra o ambiente, contra as outras espécies e também contra si próprio.

Voltando às aventuras com Tarzan, poderei especular que a singularidade, a beleza e a atração exercidas pelos intervenientes terão a ver precisamente com a não existência de “descontinuidade” entre espécies, sobretudo entre o Homo troglodytes e o Homo sapiens, a não reivindicação de alma por parte do humano e o não “direito” a ser proprietário dos outros e do espaço envolvente. Sendo o ser humano mais inteligente, competir-lhe-á, isso sim, exercer a função de guarda e de segurança de tudo o que o rodeia, protagonizado pelo Tarzan nas suas aventuras, sempre acompanhado da fiel Chita.

É curioso como certas histórias encerram significados e ensinamentos tão belos, que só agora me apercebi, mas que entretanto não deixaram de produzir os seus efeitos.

Ainda bem, Chita. Obrigado.

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