Anotações políticas fantasiosas, ou talvez não

Lucílio Carvalheiro

Compreendi que o eleitorado tenha escolhido o Dr. Passos Coelho para ser o “capataz” ao serviço da troika. Foi ele (Passos Coelho) que “obrigou” o Governo Sócrates a demitir-se ao chumbar o PEC IV.

Em tese não me pareceu bem. Sócrates estava a agir, como primeiro-ministro, recusando vir a ser “capataz” de quem quer que fosse; Passos Coelho, como “capataz”, recusa vir a ser primeiro-ministro. Mas para estes casos já não há remédio; para futuro não vislumbro maneira de os eleitores se interessarem pela política, como tal.

Dado o “chumbo” do PEC IV, a capacidade da banca se financiar no mercado internacional caiu a pique. Sem moeda própria para a socorrer, o Estado teve que pedir a ajuda externa.

Todo o trabalho de redacção do memorando (denominar-se memorando não o é por acaso) apresentado à troika e aceite por esta, foi elaborado pelo Governo Sócrates e não podia ser de outra maneira. A troika considerou as propostas do Governo Sócrates credíveis. Fiscaliza a sua execução e vai “largando o cordão à bolsa”. Daqui resulta que seria mais curial ser o PS a levar o proposto à prática. O eleitorado mais interessado nos “cursos reconhecidos ao domingo” e coisas parecidas multiplicou-se em equívocos, incongruências e…erro político eleitoral.

A pressa do PSD e CDS/PP em ser poder sempre os cegou. Querem ser poder, mas não sabem ser governantes; não é por acaso que nos últimos 20 anos só o tenham sido por escassos 3 ou 4 anos.

O PSD e o CDS, aquando das eleições legislativas antecipadas, estavam na posse do programa governamental do Estado Português – propostas apresentadas aos financiadores externos – mas fizeram toda a campanha eleitoral mentindo deliberadamente ao eleitorado, fazendo-o crer em toda outra coisa: que tudo se resolveria sem PEC(s), sem custos sociais (impostos) etc.etc. Assim a política está necessariamente muito longe de ser compreendida pelo cidadão-comum.

A nossa sociedade política (Governo e Assembleia da República) está “capturada” por economistas e advogados. Os economistas querem os números do Deve-Haver iguais a “todo o custo” – veja-se o ar felicíssimo como discutem uma variação favorável de 0,000001% do PIB à custa do aumento das receitas – IVA, IRS, IRC, IMI, taxas liberatórias, tudo o que cheire a encaixar dinheiro; os advogados querem tudo muito explicado (exaustivamente escrito) em todo o normativo jurídico o que, forçosamente, dá lugar a contradições, a diferentes leituras, quiçá, “alçapões” legais, e, digamos que isto lhes interessa profissionalmente – contenciosos judiciais.

Ora o político não precisa nada disto. Aqui está a questão. Não temos políticos, não temos ESTADISTAS.

 

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