Talvez uma história infantil

Francisco Queirós

“Naquele tempo e naquele país – talvez estado, talvez nação, talvez não – tudo corria como sempre. Depois da quadra festiva de Natal, e enquanto todo o povo se preparava para o novo ano, começava a época dos saldos. Por todo o lado, os grandes estabelecimentos e mesmo o pequeno comércio que ainda não encerrara as portas anunciavam reduções substanciais dos preços. Era assim naquele reino ou estado ou nação ou talvez não, enquanto lá fora a vida do resto do mundo prosseguia numa aparente normalidade. Na cidade de Medellín, na Colômbia, na favela Comuna 13 inaugurava-se uma escada rolante. Os jornais do país, estado, reino, república ou nação ou talvez não, não mentem. E neles se lia neste final do ano que o bairro da lata Comuna 13 tinha agora uma magnífica escada rolante para vencer o tortuoso declive de 130 metros e 350 degraus que até hoje se vencia em 35 dolorosos minutos e que agora graças ao desenvolvimento qualquer favelado podia percorrer sem correr em singelos 5 minutos. Isto sim é progresso, o merecido desenvolvimento de um enorme bairro de lata feito por fora e de fome, miséria e droga por dentro, mas com uma magnífica obra da mais moderna engenharia por volta! Mas tudo isso se passava por esses dias na distante Colômbia e não aqui ou ali ou lá naquele país ou república ou nação ou talvez não.

Nesse, neste ou nesse outro país, ou nação ou talvez não, havia saldos de tudo. As poucas lojas que ainda não tinham falido, promoviam tudo a preços da ocasião, má ocasião, diga-se. Era ver-se então preços de dez por cento em sapatos e vestidos, em camisas, gravatas e cuecas, enquanto os jornais em saldo também anunciavam que a Samoa saldava a próxima sexta-feira. E já os leitores de jornais acotovelando-se aos quatro e cinco sobre as páginas em saldo, numa leitura partilhada até no preço, se questionavam se também nesse, neste ou nesse outro país, república, nação ou talvez não, os governantes seguiriam o exemplo do primeiro-ministro da Samoa e decretavam a extinção da próxima sexta-feira. Assim o determinou Tuilaepa Sa’ilele Malielegaion. À meia noite de quinta saltam os samoanos para sábado e assim ficam certinhos com os australianos e neozelandeses e livram-se de serem o último lugar do mundo a ver nascer o sol e tornam-se os primeiros que o vêem erguer-se! Copiariam assim o exemplo os governantes de cá ou de aqui ou de lá? Entretanto, o país, estado ou nação ou talvez não, saldava tudo: o emprego pago a preços de super-promoção. O desemprego, tal era a promoção, já nem se pagava. Saldava-se a saúde, promovendo-se-lhe em sentido ascendente as taxas que a promoviam a inacessível. Promoviam-se em igual sentido os preços, enquanto em sentido contrário, em queda, se remexiam os salários e rendimentos. Saldava-se a lei das leis, uma tal dita Constituição que constituíra um sério empecilho e que agora já pouco ou nada constituía. Saldava-se a dignidade e a esperança esvaída no pagamento escandaloso de uma dívida impagável em anos-luz. Saldava-se tudo naquele país, república, estado ou nação ou talvez não! Saldava-se!

Foi então que naquele país, estado ou nação ou talvez não, se viram, saindo de toda a parte meninos e meninas, jovens, adultos e velhos de mãos dadas que primeiro sussurrando depois mais alto, por fim gritando disseram não! Aqui, neste país, neste Estado e nesta Nação Não!”

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