Soluções globais

Álvaro Amaro

O processo de globalização foi entendido, ainda num passado não muito distante, como um dos sinais de desenvolvimento e de modernidade das economias. Passou a haver mais mobilidade de pessoas, bens e capitais, para além de um patamar mais elevado de relações comerciais.

Apesar de algumas dificuldades esperadas, não era expectável que tudo isso arrastasse consigo factores de potenciação da crise nacional e internacional que vivemos actualmente. Muitos já consideram hoje que as posições assumidas pela Europa no quadro das negociações da Organização Mundial do Comércio não acautelaram os interesses estratégicos deste bloco económico e social.

Mais grave ainda é o facto de se “terem aberto” as portas à concorrência desleal com países e regiões que desvalorizam o factor trabalho, não garantindo direitos, condições salariais e protecção social aos seus trabalhadores. Convenhamos que, num mundo tão desequilibrado, decidir políticas sem contar com essa realidade pode ser uma má solução.

Numa economia moderna e do mundo democrático tem de haver lugar ao reconhecimento das decisões, ao respeito institucional, mas sem nunca esquecer o papel activo dos cidadãos.

A Europa fala assim, mas tem talvez um dos maiores desafios pela frente. Na verdade, a crise é global e dificilmente não haverá soluções que não sejam globais. Sinais recentes da Cimeira Europeia não favorecem tal pensamento, pelo menos enquanto alguns Estados-Membros olharem para os outros como culpados, como custos de um projecto que acreditávamos ser solidário e com uma dinâmica imparável de crescimento.

A Europa ou se une em volta da ideia de solidariedade e de uma moeda única sólida, ou se desmorona com todos os riscos de conflitualidade histórica que lhe estão associados ao longo dos tempos.

No nosso caso, a debilidade da conjuntura económica e financeira tem exigido políticas de reconfiguração do investimento no sentido da poupança pública e a exigência de sacrifícios às pessoas para estancar a espiral de queda dos nossos indicadores.

Um sacrifício que representa um custo social elevadíssimo e um impacto emocional negativo nos cidadãos. Daí a absoluta necessidade de que as pessoas percebam que tudo isto faz sentido, tem um objectivo e está “marcado” no tempo.

Nada pior do que impor sacrifícios sem lhes dar um sentido, sem que eles sejam percebidos como meio de instrumento para a alteração da realidade. O sacrifício como método é a pior agressão moral que a política pode induzir nas pessoas.

As notícias – por norma más notícias – do nosso dia-a-dia têm de ser compensadas com uma dose reforçada de confiança nas decisões políticas, na equidade e justiça das medidas, na mobilização de todos num sentido do bem colectivo. O desemprego, o encerramento das empresas, um novo desenho do sistema social, tudo isso tem de ser assumido como um percurso, eventualmente necessário, mas que não nos arrastará para o fatalismo como um fado mau da nossa vida.

É verdade que a realidade hoje é mais global, como escrevi de início, mas a Europa encontrará o seu caminho mantendo as diferenças e convergindo nas soluções de tão profunda crise.

Acreditemos.

Um santo e feliz Natal.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*