O euro e o orçamento

Álvaro dos Santos Amaro

Na noite em que escrevo estas linhas assisti a uma magnífica entrevista do Dr. Mário Soares num dos canais televisivos. Desde o recordar dos tempos da luta contra o regime até à esperança de que a Europa tome o rumo certo, foi um encanto ouvi-lo, e em particular pela justificação do título deste seu último livro, “Um Político Assume- -se”. Como dizia, numa época em que os políticos quase parece terem medo de se classificarem como tal, é Mário Soares que vem dizer, e bem, a honra que tem em ser político. Aqui está uma lição simples, mas importante, em particular numa altura em que tanto se discute a falta de estratégia e, por isso, de visão política da Europa face a esta brutal crise. E a verdade é que se revela preocupante a indefinição a que assistimos no quadro europeu, nomeadamente quando, nesta semana, o sr. comissário Olli Rehn veio dizer que estes próximos dez dias (atè à Cimeira do dia 9) serão decisivos. Uma declaração deste tipo tanto tem de desafio como de ultimato à responsabilidade dos estados-membros, em particular aos que se têm assumido, e mal tantas vezes, como os “mandões” de toda a Europa, ou seja, o velho eixo franco-alemão.

A crise espalha-se de país para país e, como me dizia um amigo, terminará quando começarem as “filas na Alemanha”. E eu pergunto: será necessário chegarmos aqui? Só o facto de se discutirem os cenários de implosão do euro já é, em si mesmo, brutalmente preocupante. Também aqui não resisto a citar Mário Soares quando dizia que o “fim do euro era tão estúpido, tão estúpido…”, ou então o primeiro-ministro, também ele numa entrevista noutro canal televisivo, ao deixar bem vincada a ideia, com particular desassombro e absoluta sinceridade, de que a implosão do euro geraria uma enorme recessão económica com consequências devastadoras para o projecto europeu.

Mas esta foi também a semana em que o Orçamento de Estado para 2012 foi aprovado em votação final global. Aí está talvez o documento financeiro mais difícil da nossa democracia, que conduzirá, nas palavras do primeiro-ministro, a alguma recessão, sendo que, apesar disso e mais importante é o estímulo à economia para que se inverta a prazo a actual trajectória.

Que assim seja!

Uma coisa temos todos nós como certa: ou a execução orçamental em 2012 dá boas indicações, sendo este um ponto absolutamente crítico, ou então valeu de pouco este esforço colossal dos portugueses.

O ano que aí vem é, por isso, o do passo atrás, para que os próximos sejam de passos à frente.

Mais uma vez… que assim seja!

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