Natal: marca antes e depois da história

Mário Nunes

O Natal é nascimento, é vida, é o acordar para a Luz. Símbolo de renovação, representa para os cristãos o nascer de um mundo novo que se renova, cada ano, em cada Dezembro.

Natal que trouxe uma nova era, que fará a separação dos tempos, o antes e o depois. Marco fronteiriço, linha divisória que a História irá perpetuar. Mesmo que o homem não acredite, que o homem duvide, que a ciência continue a evoluir e as mentalidades se transformem e diferenciem, o marco histórico permanece, a História dividir-se-à em antes e depois de Cristo.

Neste entendimento, inquestionável, jamais alguém pode ignorar a data, sejam crentes ou agnósticos, letrados ou analfabetos, vejam em Cristo um Deus, um profeta ou um menino pobre nascido numa choupana, atribuam ao Natal um sentido religioso ou celebrem, somente, uma festa profana. O Menino-Deus é sempre lembrado na data de 25 de Dezembro, quer em alegria contagiante, quer na tristeza que o momento opera sustentada na saudade.

Natal, tempo de grandeza espiritual e humana, que condensa na sua amplitude um período intenso de valores inscritos nos sonhos mais fortes do homem, já que acolhe a saúde, o amor, a paz e a solidariedade, riquezas que trazem os restantes complementos para una efectiva e plena vivência terrena.

Porém, o Natal neste mundo em crise, em todas as áreas e latitudes, mesmo religiosas, fica ausente para milhões e milhões de homens e mulheres nossos semelhantes. O desemprego, a injustiça, a humilhação, a fome, a doença, a corrupção, a guerra, a escravatura e o desprezo pela vida alheia, por parte de governos despóticos, de ditaduras ferozes, de usurários sem escrúpulos, de gananciosos sempre insatisfeitos, de políticos insensíveis à realidade que os rodeia, de egoísmos escandalosos e a existência de ricos e poderosos que dominam a seu belo prazer e praticam ou mandam executar os crimes, os genocídios e os massacres mais horrendos, transformam o Natal, para milhões de pessoas, em ferida que sangra e aniquila sem piedade. No mundo dos nossos dias prolifera a epidemia incontornável do número, do cifrão, da ambição sem limites e sem controlo.

Há dias ficámos deveras impressionados. Numa superfície comercial da nossa cidade abeirou-se de nós, com ar cansado e rosto macilento, mas decentemente vestida, uma senhora de cerca de 40 anos, que segurava na mão esquerda uma caixa com esferográficas e uma bolsa plástica com folhas manuscritas de poemas (quadras). E, implorou (termo adequado): “o senhor pode ficar-me com uma esferográfica ou uma poesia? Dá o que quiser”. Sem nos deixar formular qualquer pergunta, completou: “ eu e o meu marido estamos desempregados, há bastantes meses, temos dois filhos na escola e a fome é nossa companheira, recebendo ajuda para a renda de casa e algum alimento das bondosas vicentinas”. Que podíamos questionar?

Caros leitores, com situações idênticas e aos milhares em todo o mundo, com tantos portugueses no limiar ou na pobreza extrema, como se viverá o Natal? Continuamos a viver como se nada deva ser mudado, como escreveu o Engº JoE, como podem ficar insensíveis os poderosos que sugam o suor e o sangue aos trabalhadores e os escorraçam e põem borda fora, sem problemas de consciência, obrigando-os à miséria? Aqueles empedernidos serão pedras feitas pessoas?

Natal, data em que o Divino se une ao Humano – obra-prima – deixando sinais de esperança num mundo à espera de esperança. A todos desejo um Santo Natal.

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