Digerir o cadáver Portugal

Lucílio Carvalheiro

9 De Dezembro 1966. Angola. Noqui. Companhia 1410. Socorrer coluna da 1411. Na Cabeça da Velha, caída numa emboscada. 21 camaradas mortos. Sangue vertido. Aula prática de anatomia. Juntar corpos. Braços. Pernas. Cabeças esfaceladas. Encaixar tripas, também. Quebrar cada chapa. Guardar os números. 21 meias chapas. 21 números. Eram pessoas. Passaram a números.

Ali mesmo. Uma bazuca. Um morteiro. Uma Browning. G3 tiro a tiro. Cada arma com o seu som. Naquele instante um som único. Único o sentimento. Único o gesto. Única a homenagem. Clarim. Um som para o éter. Arrepios frios. Pele de galinha. Olhos secos.

24 de Dezembro seguinte. 15 dias após. É Natal. Inopinada. Noite de Natal. 25 Combatentes. Arriscando a também serem números. 50 olhos se cruzam. Desviam-se. Olha-se para o vazio. Para o passado. Para o futuro. Cabeças frias. Coiros endurecidos. Natal banido. Nunca mais se gostará do Natal.

E por ali se morria por Portugal.

Novos ventos. Por criatividade. Por empreendorismo. Por inovação. Por política, amputar Portugal. Portugal exíguo. Portugal dos Pequeninos. Que ternura. Comportamento irresponsável de filhos de pais ricos. Não estiveram lá. Não viram. Não viveram. São números. Antes de serem pessoas. São máquinas. Debitam números. Esquizofrenicamente números. Números. Cortam-se as pessoas. Cortam aqui. Ali. Além. Acoli. Acolá. E não há os TE. Trazendo as orelhas cortadas. Troféu da represália.

Natal de 2011. Portugal é já cadáver. Caído na emboscada. Já ninguém morre por ele. Já ninguém quer morrer por ele. Passou a número. Quebre-se a chapa. Recolha-se a meia chapa. Registe-se o número.

Em velório. Digerir o cadáver. Chama-se Portugal. Olho para o número atribuído. Ignoro-o. Olho em redor. Pessoas. Que vejo. Porque cuidei dos mortos. Talvez. Porque tive o 9 de Dezembro de 1966. Com certeza. Porque o Maio de 68 vivi, também.

Não gosto do Natal. Não gosto deste Portugal. Já sem sangue para derramar. Derramo esta tinta. Para sujar. Sujar os números. Sujar quem os endeusa. Sujar os vencidos. Os cobardes. Os sem querer. Os conformados à dor. Os sem coiro endurecido. Da vida. Pela vida, vivida.

5 Comments

  1. Massano Cardoso says:

    "Digerir o cadáver Portugal"
    Li, reli, arrepiei-me e não sei o que dizer.
    Vou guardá-lo.

    • Lucílio Carvalheiro says:

      Professor Doutor Massano Cardoso, Muito me honra ter-se dignado comentar o meu dito. Se me permite, levo a sua sentida emoção ao altar da homenagem sempre renovada aos, então, caídos. Por ELES um muito e muito penhorado agradecimento.

  2. A mesma treta de sempre…

  3. José Paixão says:

    … e mais um palerma (o VEH, obviamente) a juntar-se a muitos outros. Valha-nos Deus! Não entendeu nada de nada!

    • Lucílio Carvalheiro says:

      Agradeço a sua observação. Se me permite, já que o não poderia (deveria) fazer em "primeira mão" subscrevo, na integra, o seu comentário.

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