Apostar nas pessoas

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Maria Manuel Leitão Marques

“Este parte, aquele parte e todos, todos se vão, Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão”, são versos de um poema de Rosalia de Castro, que Adriano Correia de Oliveira cantou para nós nos anos setenta (Cantar da Emigração).

Desde há séculos que os portugueses percorrem as rotas da emigração. Primeiro,os mais desfavorecidos à procura de sobrevivência ou à procura de liberdade para poderem respirar, que foi também uma das causas do “salto” nos anos da ditadura. Depois, saíram também os mais qualificados à procura de projectos e condições de trabalho mais parecidas com aquilo que sonharam.

Em outros países europeus passou–se o mesmo, em especial nos mais pobres e periféricos. Mas também deles e de outros mais centrais partiram muitos artistas, cientistas e outras pessoas muito qualificadas a caminho dos EUA, por exemplo, onde se tornaram célebres pelas músicas que compuseram, pelos livros que escreveram, por aquilo que descobriram e fizeram.

Uma coisa é certa, essa emigração qualificada frequentemente tornou mais prósperos e inovadores os países de destino e raramente ajudou a enriquecer os países de onde proveio. O mesmo empobrecimento ocorrerá se a Europa e os países que a compõem perderem pessoas qualificadas para outros blocos e continentes nas próximas décadas.

Por isso mesmo, e de acordo com um estudo publicado este ano, Europe 2020 – Competitive or Complacent? de Daniel Hamilton, um dos desafios que a Europa tem de vencer até 2020 é o da qualificação das suas pessoas. Precisa de lhes dar novas oportunidades para se qualificarem e, provavelmente, de acordo com as conclusões do estudo, precisará até de atrair pessoas muito qualificadas de fora do seu espaço. Daí a inciativa da Europa, conhecida por Blue Card, para simplificar a entrada de trabalhadores qualificados de fora da União. (Coisas que um deputado europeu deveria saber). É com todas essas pessoas que a Europa pode tornar-se mais competitiva relativamente ao resto do mundo e evitar entrar em perda, abandonando definitivamente a capacidade de se manter no pelotão da frente. Mais qualificação para ser mais produtiva, para ser capaz de arriscar, para ser mais inovadora, para que o investimento feito na inovação passe mais depressa para a economia e se transforme em riqueza.

Se empurrarmos as pessoas que qualificámos para fora da Europa, aquelas com maior capacidade de iniciativa, desistindo assim de lutar por um cenário competitivo, preparemo-nos já para a decadência. Talvez não falte o “pão”, como cantava Adriano, talvez não nos transformemos num “campo de solidão”, como excreveu Rosalia, mas provavelmente ficaremos “órfãos” de muitos direitos básicos adquiridos no século passado. E sem futuro.

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