Tudo por uma pastilha

Marisa Matias

Sou de uma geração que cresceu a comer o gelado Epá por causa da pastilha que vinha no fundo do cone. A pastilha era tão crucial que pedíamos para trocar se a cor não fosse a preferida.

Comprar uma pastilha ficava muito mais barato, já sabíamos, mas não era a mesma coisa. Os tempos mudaram e o gelado adaptou-se, a pastilha é já sem açúcar, mas continua lá. O orçamento que o governo propôs não é nada mais, nem nada menos. É, afinal de contas, um Epá: serve-se gelado, cheio de “malabarismos” e com a promessa de uma suposta pastilha que havemos de ter direito daqui a muitos, muitos anos. Se dúvida houvesse, são as contas do próprio governo que nos dizem que devemos esperar uma taxa de crescimento média de cerca de 1% até 2050. Uma promessa de miséria a 40 anos, portanto.

É o aumento de impostos que vem para ficar pela mão de quem repetiu à exaustão que jamais seguiria esse caminho. É o empobrecimento de quem trabalha ou trabalhou anos a fio para ter uma reforma. É a desistência de serviços públicos dignos desse nome na educação e na saúde. Tudo isto em nome de quê? O primeiro-ministro chamou-lhe coragem. Coragem teria sido apresentar estas medidas antes de ir a votos. Coragem é ultrapassar o medo e não tentar incuti-lo nos portugueses.

Coragem é rejeitar a intimidação e não ser-se subserviente. Coragem foi o que faltou quando o governo voltou atrás na proposta de retenção na fonte de 21,5% para os accionistas não-residentes de empresas registadas no offshore da Madeira. Este é, no fim de contas, um orçamento que revela o medo de quem não teve a coragem de falar verdade em tempo certo.

Um orçamento serve um projecto político, um programa, uma proposta para o país. No orçamento de 2012 é difícil vislumbrar outro caminho que não seja o da austeridade. É aqui que começa a falhar a imagem do gelado. Se o orçamento fosse um Epá, podíamos passar etapas e apressar o processo para chegar logo à pastilha. Pelo contrário, a proposta que agora foi aprovada deixa-nos antes um forte sabor amargo, mas não nos rouba a capacidade de resistir. Dia 24, com a greve geral, dar-se-ão passos no sentido da luta. Não nos deixemos atrasar.

One Comment

  1. Álvaro Cardoso says:

    É voz corrente ouvir-se e escrever-se que o país não cresce por falta de investimento. Nada mais verdade. Deixo aqui uma sugestão: Porque razão é que todos aqueles que fazem estes comentários e dão as melhores soluções e saberes e se encontram sentados à volta da mesa do orçamento (para o qual têm contribuido, sempre e maioritàriamente, os que menos podem) e fazem estas super valiosas afirmações não se juntam e criam uma ou várias sociedades por quotas, anónimas ou mesmo em nome individual, nos vários sectores sobre os quais "BOTAM" o seu saber?
    e fazem estas afirmações não se juntam e criam uma ou várias sociedade por quotas ou mesmo individualmente, para aí darem largas aos seus elevados conhecimentos nos mais variados sectores

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