Sobre a fome como produto dos mercados

Júlio Marques Mota

Depois de termos falado de Tales de Mileto ou de uma história inventada como são todas as histórias, e inventada à volta dos mercados a prazo, mercados físicos ou alternativamente os mercados de papel, os futuros, eis-nos com uma história não imaginada, em que se alguma coisa há a imaginar, é então sobre a leitura que dela se pode depois falar.

Uma história verdadeira, portanto, de ontem já muitas vezes contada e agora revisitada para melhor comprendermos os maus tempos que por nós agora correm ou em que por eles nós andamos a correr, talvez.

É uma história terrível, não muito diferente das que acontecem agora e que aconteceram em 2008 com os preços dos produtos alimentares a subirem nas bolsas de mercadorias por efeitos da especulação e com esses títulos a serem vendi-dos a todos nós como títulos de alta rentabilidade, ditos investimentos em índices de matérias-primas e bens alimentares, medida esta rentabilidade indirectamente pelas mortes de fome provocadas.

Mas isto é o mercado, dizem-nos os neoliberais, estes são eficientes, garantem-nos, estes são eficazes, confirmam-nos, tudo isto pelos índices da Bolsa bem confirmado. Mas da confirmação dos neoliberais temos a realidade de hoje e de qualquer país europeu a ser disso uma clara evidência da mentira tão bem vendida nas nossas Universidades, e não só. Perguntem a um aluno da Universidade Nova o que sobre isto aprendeu em Economia, para além da certeza de que o pai, o tio, o avô lhe arranjará garantidamente emprego com o grau de doutor. Trata-se pois de uma história terrível do século XIX mas podia ser de hoje, onde a ganância dos homens fazia lei, a lembrar os nossos mercados de hoje, mas dessa vez bem distante, os deuses decidiram temporariamente estar ao lado dos homens, ajudaram-nos, deram-lhes boas colheitas de trigo e os tubarões dos mercados por força desse destino criado por todos aqueles que de dia e de noite o trigo ceifaram, por todos aqueles que dia e noite o trigo para Chicago transportaram, os tubarões foram pela força de trabalho colectiva bem esmagados.

Mas, muitíssimas vezes, os Deuses também se esquecem de nós, os humanos e também dos desumanos que deixam sucessivamente à solta de qualquer travão ético, humanos que por cá andamos às cabeçadas com o que não podemos transformar e em que à custa de não sabermos desconstruir o discurso neoliberal e as suas práticas estamos nelas sempre a caír.

Exemplo disso é a especulação desenfreada que nem com a crise por ela estimulada para não dizer mesmo por ela criada, foi estancada e quanto aos mortos que outrora andou a fazer, o que se sabe é que o mesmo caminho estará de novo disposta a percorrer sob a alçada dos nossos silêncios, de cobardia ou de ignorância, talvez. Disto nos dá conta Esther Vivas quando escreve:

A ameaça de uma nova crise alimentar é já uma realidade. O preço dos alimentos começou a subir para níveis recordes uma vez mais, de acordo com o Índice de Preços da FAO de Fevereiro de 2011, que faz uma análise mensal dos preços globais de um cabaz de bens básicos composto de cereais, óleos de sementes, produtos lácteos, carne e açúcar. Este aumento do custo dos alimentos, especialmente dos cereais básicos, tem sérias consequências para os países do sul com baixos rendimentos e com uma dependência da importação de alimentos, e para milhões de famílias que nesses países dedicam entre 50 e 60 por cento dos rendimentos para a compra de bens alimentares, um número que sobe para 80 por cento nos países mais pobres. Nesses países, o aumento do preço dos produtos alimentares torna-os inacessíveis.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que com a actual crise alimentar tem aumentado o número de pessoas que sofrem de fome crónica calculado esse aumento em cerca de 44 milhões. Em 2009, esse número foi ultrapassado, atingindo 1,023 mil milhões de pessoas subnutridas no planeta, um número que desceu ligeiramente em 2010, mas sem regressar aos níveis de antes da crise alimentar e económica de 2008 e 2009.

A crise atual desenrola-se num contexto de uma abundância de produtos alimentares. A produção de alimentos tem-se multiplicado ao longo das três últimas décadas e desde os anos sessenta, enquanto que a população mundial apenas terá duplicado desde então. Há uma enorme abundância de alimentos.

Ao contrário do que instituições internacionais como a FAO, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio têm andado a dizer, não se trata de um problema de produção, mas sim de um problema de acesso aos alimentos. Estas organizações pretendem que haja um aumento da produção através de uma nova revolução verde, que só irá tornar as crises alimentares, ecológicas e sociais ainda piores.

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